sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Gutiérrez e uma outra Havana revolucionária

Com o manuscrito do romance O americano tranqüilo na mala, um de seus livros que viriam a se tornar mais famosos, o escritor britânico Graham Greene chega a Havana em julho de 1955 para esclarecer um mistério que envolve seu nome. Na capital da Cuba pré-Fidel, motivado pela curiosidade de escritor, acaba mergulhado num mundo onde convivem artistas pornôs, travestis, agentes do FBI e da KGB, caçadores de nazistas e a máfia italiana de Nova York.

Baseado em fatos reais e com ritmo de romance policial, Nosso GG em Havana recria essa época pouco conhecida da história cubana mais recente. "É uma história cujo objetivo é divertir. Fala da máfia italiana aqui em Cuba, da época do ditador Fulgêncio Batista e da presença do FBI em Havana", explica o autor Pedro Juan Gutiérrez. Aos 56 anos, 26 dos quais dedicados ao jornalismo, o escritor cubano também explora como tema deste romance a força da palavra escrita, a sedução que ela exerce sobre o leitor e o temor que em geral suscita nos poderosos.

Nosso GG em Havana é, ao mesmo tempo, entretenimento e uma divertida reflexão sobre o ofício do escritor. "A filosofia nos romances é como o bitter nos coquetéis. Duas gotas. Três é exagero", diz Gutiérrez com a voz de seu protagonista, Graham Greene. Ou ainda, mais adiante: "Um romance é como um edifício. Não se podem botar portas e janelas em qualquer lugar. É preciso saber qual é o ponto exato em que devem ficar. E qual é o tamanho, o estilo, a cor que devem ter. Como acontece com os edifícios, alguns romances são singulares e perduram e são visitados por milhões de pessoas. Outros são anódinos e vulgares e não atraem ninguém, até que desmoronam com o passar do tempo."

Os leitores das cinco obras anteriores que compõem o seu Ciclo do Centro de Havana encontrarão aqui as marcas registradas da obra do autor, que ficou famoso mundialmente depois de publicar 11 livros em 20 países, com tradução para 18 idiomas, explorando, sempre de forma mordaz e direta, a marginalidade, o sexo e a miséria em Havana.

Este, porém, é apenas o quinto livro de Gutiérrez lançado em Cuba. Antes de ser publicado na terra natal do escritor, Nosso GG em Havana já havia sido lançado na Itália e na Espanha, e comprado depois por uma editora britânica. "Em Cuba, alguns me amam e outros me odeiam", disse o escritor numa entrevista em seu apartamento no bairro de Centro Havana, onde ambienta a maioria de suas histórias. Ele, que prefere não falar de política, acredita que em Cuba só são permitidos os livros "menos provocativos

Após publicar Trilogia suja de Havana, livro que o lançou para a fama, em 1998, a revista estatal Bohemia, para a qual trabalhava, o demitiu. "No jornalismo que se faz em Cuba há zonas silenciosas. De certa forma, essas zonas só ganham espaço quando se escreve um conto ou um romance, mesmo que inconscientemente", diz ele.

OBS: Leia trecho livro
http://www.objetiva.com.br/objetiva/cs/files/images/capas_livros/9788560281435.pdf

Serviço
Nosso GG em Havana
Pedro Juan Gutiérrez
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
128 páginas - R$ 29,00 (em média)
Editora Objetiva

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