quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Teatro de excelente qualidade

"O ateliê voador e Vocês que habitam o tempo", de Valère Novarina, até então inéditas no Brasil, estão agora reunidas em livro pela coleção Dramaturgias. O ateliê voador, sua primeira peça, foi escrita em 1971 e encenada em 1974. Em cena estão o casal de patrões, Boucot e Senhora Boca, e seus seis empregados, designados apenas pelas letras A, B, C, D, E e F. O texto explora as relações de trabalho desumanizadas no mundo capitalista. O ponto alto, característico do autor, está na estruturação dos diálogos e na força da linguagem usada como jogo de poder e de rebelião. Já em Vocês que habitam o tempo, as personagens não têm identidade social ou psicológica definidas, elas vão se construindo a partir da linguagem. A peça foi apresentada pela primeira vez em 1989, com direção do autor.

Serviço
O ateliê voador e Vocês que habitam o tempo
Valère Novarina
Tradução: Angela Leite Lopes
216 páginas - R$ 40,00 (em média)
Editora 7 Letras

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Comunicação Popular Escrita



Desde a década de 1970, diversos estudos foram feitos sobre a grafitagem, mas inexistem estudos mais abrangentes sobre a comunicação popular escrita em suas diferentes manifestações e suportes. Neste livro, Américo Pellegrini Filho apresenta o resultado de vinte anos de pesquisa em mais de cem países, nos quais coletou e classificou mais de 10.000 mensagens, que incluem cartões de boas festas, escritos em lápides, frases em sanitários públicos, camisetas, pichações, entre muitos outros. As amostras foram registradas entre 1988 e 2007 e estão classificadas em 22 classes e 40 temas e subtemas, e são reproduzidas no livro nas línguas originais com a devida tradução - 42 línguas e quatro dialetos. Acompanha o livro um CD-rom com explicações complementares, levantamento bibliográfico, o acervo coletado em ilustrações, além do detalhamento das viagens do autor.

Serviço
Comunicação Popular Escrita
Americo Pellegrini Filho
696 páginas - R$ 70,00 (em média)
Editora Edusp

O pai dos burros

Não digo que "O Pai dos Burros" (Arquipélago Editorial) é daqueles "livros que não se consegue largar" porque isso pode soar como ofensa, ou no mínimo uma afronta ao autor, o jornalista Humberto Werneck. É que esse mineiro, que também assina "O santo sujo - A vida de Jayme Ovale" (CosacNaify), eleito pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como a melhor biografia de 2008, se ocupa há quase 40 anos em anotar, guardar e quebrar ao meio frases feitas como a acima citada. Dessa pesquisa saiu o dicionário, com mais de 4.500 expressões espalhadas pelos 2.000 verbetes da obra, apresentados em ordem alfabética a partir da palavra-chave. Pérolas que a gente escuta (e fala) todo dia como "façanha sem precedentes" ou "múltipla faceta" nos faz sentir meio burrinho mesmo. Mas, graças a Deus, protegido pelo pai.

A obsessão do autor em juntar essas fórmulas prontas (anotava em guardanapo, maço de cigarro ou no que estivesse ao alcance) é a prova de uma "preocupação sadia" (essa pode entrar na próxima edição do livro!) com a linguagem. Humberto é reconhecidamente um dos melhores textos do jornalismo brasileiro. E é famoso, justamente, por retorcer a frase-feita, dando-lhe um sentido original. Porque dizer que a vida está de "vento em popa" não tem o menor charme, mas o contrário, de que está de "vento em proa" é mesmo bem interessante.

Para chegar até "O Pai dos Burros", Humberto vem num longo caminho de fórmulas prontas. Leu "Dicionário das idéias feitas", de Gustave Flaubert (1952), e "Lugares-comuns", de Fernando Sabino (1974). Passou um bom tempo da vida, e talvez ainda passe, obcecado em catalogar frases e mais frases. "Inclui coisas novas até o último minuto possível no processo de edição e já tenho novas anotadas", diz o autor.

Seu olhar está tão treinado que Humberto identifica fácil o nascimento de um lugar-comum. Afinal, "as expressões só se gastaram por terem sido, um dia, luminosos lugares-incomuns, a partir daí repetidos até a exaustão semântica". Ele diz, por exemplo, que até vai sua memória os "porões da ditadura" e os "anos de chumbo" que a gente lê tanto por ai são criações do jornalista Augusto Nunes, lá pelos anos 1970, na revista Veja. "O problema é que a imitação é sempre tão menos talentosa", diz Humberto, que lança na entrevista a seguir o convite à reciclagem das palavras.

Serviço
O Pai dos Burros - Dicionário de Lugares-Comuns e Frases Feitas
Humberto Werneck
205 páginas - R$ 29,90 (em média)
Arquipélago Editorial

A africa pela escrita de Theroux

Quase trinta anos depois de reinventar o conceito de "livro de viagem" com a publicação de "O Grande Bazar Ferroviário", Paul Theroux resolveu voltar ao continente africano, onde trabalhara como professor nos anos 1960.

Na lista dos mais vendidos do New York Times, "O Safári da Estrela Negra" é o relato rico e perceptivo de um itinerário que se estende do Cairo à Cidade do Cabo, pelo trajeto do rio Nilo, pelo Sudão e pela Etiópia, pelo Quênia e por Uganda, e termina na ponta da África do Sul. Viajando de trem, canoa, "galinheiro", caminhão de gado, Theroux passou por algumas das paisagens mais bonitas da Terra, e também pelas mais perigosas. Foi uma viagem de descobertas e de nostalgia.

Mais de quarenta anos antes, ele chegara à África para dar aulas no interior do Malaui, como integrante otimista do Corpo da Paz norte-americano. Desta vez, fez uma parada na sua antiga escola, conversou com ex-alunos e visitou amigos africanos de vários países.

Além de reflexões inteligentes sobre a condição de viajante, o livro traz uma discussão estimulante sobre história, geografia, política e sociedade proposta por Theroux, intelectual que não tem medo de sujar as mãos.

Serviço
O Safári da Estrela Negra
Paul Theroux
480 páginas - R$ 50,00 (em média)
Editora Objetiva

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Freud completo

A nova edição brasileira das obras de Freud agrupa os textos por eixos temáticos e está sendo publicada em duas etapas. Em uma primeira etapa serão publicados os textos mais lidos em psicanálise e obras que refletem a amplitude das idéias de Freud de interesse também para áreas afins, tais como sociologi-a, pedagogia, ciência política, antropologia, lingüística e ciências cognitivas.Os artigos e obras estão agrupados pelos seguintes eixos: Artes Plásticas e Literatura; A Vida Sexual; Compulsão, Paranóia e Perversão; Conferências de Introdução à Psicanálise; Escritos sobre Fenômenos Diversos da Psicologia; Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente; Escritos sobre Técnicas Clínicas em Psicanálise; Histeria e Medo; Neuroses Infantis; Questões da Cultura e da Sociedade e as Origens da Religião. Além desses temas, a primeira fase de publicação inclui as obras "Projeto para uma Psicologia" (1895); A Interpretação dos Sonhos (1900) e "Sobre a Psicopatologia do Cotidiano" (1901). Dentro de cada eixo temático a ordem dos textos é cronológica.

Esta primeira seleção inspira-se na edição alemã Sigmund Freud Studienausgabe, muito embora a edição brasileira abranja mais textos do que a congênere alemã. Os primeiros três volumes que abrem a nova tradução brasileira abordam a teoria freudiana sobre a formação do inconsciente e seu papel nas patologias, sob o título genérico de Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente.A segunda etapa também está organizada por eixos temáticos, abarca as numerosas cartas pessoais es-critas por Freud, os artigos restantes do denominado período pré-analítico, também alguns importantes textos psicanalíticos que, por repetirem idéias contidas nos textos selecionados na primeira etapa, foram deixados para a segunda fase, resenhas e artigos menores sobre temas diversos. Em conjunto, am-bas as etapas cobrem as obras completas da edição alemã Gesammelte Werke.

Os ESCRITOS SOBRE A PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE, publicados em três volumes, reúnem textos de Freud a respeito da formação do inconsciente e seu papel na psicopatologia. Contém os textos que ficaram conhecidos como "trabalhos metapsicológicos" "Pulsões e Destinos da Pulsão", "O Recalque" e "O Inconsciente" , os quais figuram entre os mais consultados e citados em psicanálise, além de artigos de interesse geral, tais como "À Guisa de Introdução ao Narcisismo" e "O Fetichismo", entre outros.

Serviço

Um estranho no ninho

Um clássico da contracultura que retrata os psicodélicos anos 60. O romance de Ken Kesey é inspirado em suas próprias experiências quando participou de pesquisas com drogas psicoativas no centro psiquiátrico do Menlo Park Veterans Hospital (Califórnia). Um estranho no ninho é protagonizado por R. P. McMurphy, um preso que escapa da condenação fingindo-se de louco. McMurphy é então internado em um hospício, sob a tutela da sádica Chefona, a enfermeira Ratched, que comanda os internos com suas rigorosas sessões de terapia e eletrochoque. Aos poucos McMurphy percebe que o hospício pode ser muito pior que a prisão, nesse novo universo cercado de pacientes inseguros, ansiosos e constantemente dopados. Pessoas que buscaram refúgio da sociedade no hospício. Um livro louco, mas muito real.
Serviço
Um estranho no ninho
Autor: Ken Kessey
420 páginas - R$ 19,90 (em média)
Editora Record

Tônia Carrero

Olhos azuis, cachinhos dourados, jeito de princesa. A mãe desde cedo notou: Mariinha não tirava uma foto natural. Em todas, fazia pose. Se desde pequena já seria possível adivinhar a vocação da menina, a feição angelical disfarçava a mulher de fibra, grandes vontades e decidida em que se transformaria algumas décadas depois. Era, desde sempre, "Movida pela paixão", como o título do livro que traça o perfil de Maria Antonietta Portocarrero, ou simplesmente Tônia Carrero, como se tornaria conhecida do grande público. A obra, escrita pela jornalista Tania Carvalho, faz parte da Coleção Aplauso Especial, produzida em grande formato e papel especial, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. A beleza excepcional, por si só, já lhe podia ter garantido fama.

Mas o talento como atriz, comprovado nas 54 peças, 19 filmes, 15 novelas e 9 programas especiais de TV em que atuou, sempre em papéis marcantes, a partir do final da década de 1940 e incansavelmente até hoje, a levou ainda mais longe: a fez se tornar uma das mais consagradas atrizes brasileiras e, para muita gente, a "grande dama do teatro brasileiro". Além do texto bem costurado de Tania Carvalho, o livro traz depoimentos de amigos e colegas da atriz. E a cada página, fotografias registram sua atuação nos diversos trabalhos.

Serviço
Tônia Carrero - coleção Apausos
Tania Carvalho
276 páginas - R$ 30,00 (em média)
Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Gutiérrez e uma outra Havana revolucionária

Com o manuscrito do romance O americano tranqüilo na mala, um de seus livros que viriam a se tornar mais famosos, o escritor britânico Graham Greene chega a Havana em julho de 1955 para esclarecer um mistério que envolve seu nome. Na capital da Cuba pré-Fidel, motivado pela curiosidade de escritor, acaba mergulhado num mundo onde convivem artistas pornôs, travestis, agentes do FBI e da KGB, caçadores de nazistas e a máfia italiana de Nova York.

Baseado em fatos reais e com ritmo de romance policial, Nosso GG em Havana recria essa época pouco conhecida da história cubana mais recente. "É uma história cujo objetivo é divertir. Fala da máfia italiana aqui em Cuba, da época do ditador Fulgêncio Batista e da presença do FBI em Havana", explica o autor Pedro Juan Gutiérrez. Aos 56 anos, 26 dos quais dedicados ao jornalismo, o escritor cubano também explora como tema deste romance a força da palavra escrita, a sedução que ela exerce sobre o leitor e o temor que em geral suscita nos poderosos.

Nosso GG em Havana é, ao mesmo tempo, entretenimento e uma divertida reflexão sobre o ofício do escritor. "A filosofia nos romances é como o bitter nos coquetéis. Duas gotas. Três é exagero", diz Gutiérrez com a voz de seu protagonista, Graham Greene. Ou ainda, mais adiante: "Um romance é como um edifício. Não se podem botar portas e janelas em qualquer lugar. É preciso saber qual é o ponto exato em que devem ficar. E qual é o tamanho, o estilo, a cor que devem ter. Como acontece com os edifícios, alguns romances são singulares e perduram e são visitados por milhões de pessoas. Outros são anódinos e vulgares e não atraem ninguém, até que desmoronam com o passar do tempo."

Os leitores das cinco obras anteriores que compõem o seu Ciclo do Centro de Havana encontrarão aqui as marcas registradas da obra do autor, que ficou famoso mundialmente depois de publicar 11 livros em 20 países, com tradução para 18 idiomas, explorando, sempre de forma mordaz e direta, a marginalidade, o sexo e a miséria em Havana.

Este, porém, é apenas o quinto livro de Gutiérrez lançado em Cuba. Antes de ser publicado na terra natal do escritor, Nosso GG em Havana já havia sido lançado na Itália e na Espanha, e comprado depois por uma editora britânica. "Em Cuba, alguns me amam e outros me odeiam", disse o escritor numa entrevista em seu apartamento no bairro de Centro Havana, onde ambienta a maioria de suas histórias. Ele, que prefere não falar de política, acredita que em Cuba só são permitidos os livros "menos provocativos

Após publicar Trilogia suja de Havana, livro que o lançou para a fama, em 1998, a revista estatal Bohemia, para a qual trabalhava, o demitiu. "No jornalismo que se faz em Cuba há zonas silenciosas. De certa forma, essas zonas só ganham espaço quando se escreve um conto ou um romance, mesmo que inconscientemente", diz ele.

OBS: Leia trecho livro
http://www.objetiva.com.br/objetiva/cs/files/images/capas_livros/9788560281435.pdf

Serviço
Nosso GG em Havana
Pedro Juan Gutiérrez
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
128 páginas - R$ 29,00 (em média)
Editora Objetiva

O realismo fantástico de Casares

Considerado um dos melhores romances argentinos de todos os tempos, O sonho dos heróis, de Adolfo Bioy Casares, publicado originalmente em 1954, narra a trajetória de Emilio Gauna, um jovem empregado de uma oficina mecânica, durante o insólito Carnaval de 1927, em Buenos Aires.

Com o dinheiro ganho nos cavalos, Gauna resolve pagar as três noites de festa para seus amigos do bar. Três anos depois, no Carnaval de 1930, com uma nova aposta ganha, ele repete os mesmo passos daquela noite, com as mesmas pessoas. O protagonista busca, assim, relembrar algo muito importante que lhe aconteceu na outra ocasião, mas que ele não se lembra o que foi.

A trama onírica, com uma estrutura circular, gira ao redor da estranha amnésia de Gauna. Suas lembranças esquivas lhe trazem de volta brigas de faca, festas terríveis, manifestações mágicas, histórias de amor e até uma fenda no espaço-tempo. "Um romance admirável", segundo Jorge Luis Borges.

OBS: Leia aqui primeiro capítulo do livro
http://www.cosacnaify.com.br/capitulos/sonho_dos_herois_cap1.pdf


Serviço
O sonho dos heróis
Adolfo Bioy Casares
Tradução: José Geraldo Couto
240 páginas; 5 ilustrações - R$ 49,00 (em média)
Editora Cosac & Naify

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

São Paulo uma cidade de muitas faces

Este projeto documental de Iatã Cannabrava começou no Capão Redondo, em São Paulo, e seguiu por favelas, morros, quebradas, villas e cerros de outras grandes cidades latino-americanas, como Lima, Caracas, La Paz, México, Buenos Aires, Montevidéu, Brasília e Belém. O resultado está em dezenas de fotos coloridas internas e externas, de detalhes e planos gerais, de pessoas, casas e carros.Assinam os textos do livro Rubens Fernandes Junior, pesquisador e crítico de fotografia; Horacio Fernándes, historiador e curador; o escritor Férrez e o DJ Nel. Em sua apresentação, Iatã conta sobre o início do projeto, as primeiras idas à periferia, os workshops que deu em Capão Redondo, as favelas estrangeiras, os avanços e retrocessos da condição de vida nesses locais.Uma Outra Cidade é uma co-edição da Terceiro Nome com o Museu da Casa Brasileira e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Serviço
Uma outra cidade
Iatã Cannabrava

164 páginas - R$ 95,00 (em média)
Editora Terceiro Nome

Capitalismo e crise ideológica

Em Da miséria ideológica à crise do capital: uma reconciliação histórica, Maria Orlanda Pinassi apresenta uma coletânea de ensaios que compõem uma investigação ontológica sobre distintos aspectos da dinâmica histórica do sistema de reprodução do capital. A maior parte dos ensaios é fruto da tese de Livre-docência defendida pela autora em 2007, trazendo o resultado de uma investigação teórica apurada.

O legado de István Mészáros, Georg Lukács e Karl Marx serve de referencial teórico para a análise de um processo que começa com a consolidação da hegemonia burguesa e chega na atual crise estrutural do capital e seus efeitos destrutivos, abordando temas como a educação, a violência e a luta dos movimentos sociais. Partindo do papel da ideologia em seu compromisso com a reprodução social incessante da ordem vigente, a autora trata ainda do conceito de decadência ideológica, desenvolvido por Lukács, em um esforço de conferir atualidade a tal conceito enquanto forma central da crítica à racionalidade burguesa.

Segundo Plínio de Arruda Sampaio Jr., que assina a orelha do livro, “na contramão da apologética que domina a vida acadêmica, a reflexão de Maria Orlanda Pinassi se volta para a práxis revolucionária”. A obra costura um conjunto de ensaios, formando uma importante contribuição para aqueles que seguem enfrentando a dura realidade imposta pelo capital.

Serviço
Da miséria ideológica à crise do capital - uma reconciliação histórica
Maria Orlanda Pinassi
144 páginas - R$ 38,00 (em média)
Editora Iluminuras

A revisão da hegemonia do capital


Considerado um dos mais destacados pensadores marxistas da atualidade, o filósofo húngaro István Mészáros apresenta, em sua nova obra, uma análise do “poder coercitivo” que as determinações sociais exercem sobre o método científico das diferentes teorias do conhecimento, no período histórico de regência do capital.

A partir de uma minuciosa investigação, Mészáros combate o mito da ciência enquanto empreendimento puramente teórico e neutro, desvinculado de qualquer relação com os interesses de classes, e mostra os limites impostos pelo modo de reprodução social à formulação teórica. Mészáros se debruça sobre as fases de grande continuidade no desenvolvimento do sistema capitalista, voltando seu olhar para a metodologia de diferentes pensadores inseridos num mesmo terreno social, orientado pela reprodução do capital. Os legados de Descartes, Kant, Hegel, Marx, Husserl, Sartre, Lévi-Strauss, Foucault e Hannah Arendt são alguns dos pontos revisitados por Mészáros nesta investigação. Entre outros aspectos, o autor desfaz a ilusão de que a tradição intelectual burguesa representa “o interesse universal da sociedade” e demonstra que, ao contrário, tais correntes filosóficas buscam referendar o capital como a única alternativa viável, desconsiderando de maneira conveniente sua dimensão histórica.

A obra desvenda, assim, as “características identificáveis de forma nítida” que circunscrevem os parâmetros metodológicos durante a era do capital, mesmo que sob as significativas inovações teóricas e metodológicas particulares ocorridas em diferentes fases do desenvolvimento socioeconômico. Resgatando o legado de Marx, Mészáros mostra que “a superação dessa perspectiva metodológica implicaria a superação do próprio capital, visto que há uma conexão insolúvel entre esses dois momentos”, segundo Ivo Tonet, que assina a orelha da obra. Estrutura social e formas de consciência: a determinação social do método faz uma contundente reflexão sobre os problemas do método num período histórico de transição e destaca a importância da dialética para a superação do sistema do capital, o qual, devido ao seu aspecto destrutivo, está em crise estrutural.

Serviço
Estrutura social e formas de consciência
István Mészáros
Tradutor(a): Luciana Pudenzi, Francisco Raul Cornejo e Paulo Cezar Castanheira
312 páginas - R$ 49,00 (em média)
Editora Iluminuras

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Os olhos de Matisse

Matisse foi o artista que deu sentido à obra moderna. A partir da pintura, do desenho e da escultura que animava Paris desde o século XIX, ele criou uma obra em que conciliava, como assinala o crítico e historiador Robert Kudielka, “a intensidade das cores” e a “precisão expressiva do desenho”. Trata-se de um dos artistas mais influentes da arte e uma das figuras centrais da cultura francesa de todos os tempos.

Devido ao seu talento e longevidade, comenta-se no debate especializado que ainda não existe uma interpretação que dê conta da complexidade e variedade dessa obra. O livro Matisse – imaginação, erotismo reúne parte das interpretações clássicas sobre o trabalho do artista, com artigos dos maiores especialistas em sua pintura na crítica brasileira e europeia. Além disso, incorpora análises de dois artistas contemporâneos daqui, em textos inéditos escritos especialmente para o volume, que nos dão a dimensão da importância da produção matissiana para a arte local.

Vários momentos da produção desse grande artista são abordados: Iole de Freitas fala da intervenção plástica do artista nos vitrais e murais da Capela do Rosário, em Vence, na França. Trata, sobretudo, da cor transparente que preenche o espaço.

O Matisse do fauvismo é mencionado no texto de T.J. Clark, em uma análise da pintura Mulher com chapéu (1905), também é bem interpretado nas análises clássicas do ex-curador do MoMA Alfred Baar do crítico da vanguarda norte-americana Clement Greenberg.

Serviço
Matisse: imaginação, erotismo, visão decorativa
Sônia Salzstein (org.)
Tradução: Denise Bottmann
262 páginas - R$ 79,00 (em média)
Editora Cosac & Naify

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Idéias Marxistas

Um dos clássicos de Leandro Konder, O marxismo na batalha das idéias é um edição comemorativa dos 10 anos da Editora Expressão Popular, publicado juntamente com outros três títulos do autor nesta ocasião (A derrota da dialética, Marxismo e alienação e Introdução ao fascismo).

O presente livro reafirma a importância de recuperarmos as formulações teóricas e os intelectuais referenciados diretamente na realidade brasileira e nos desafios colocados aos movimentos e organizações de luta da classe trabalhadora. A postura marxista antidogmática característica de Leandro Konder pode ser percebida ao longo de todo livro, não apenas no alto nível de debate que ele mantêm com correntes opostas ao marxismo, mas também dentro do próprio marxismo, buscando sempre reafirmar o caráter dialético da teoria social desenvolvida por Karl Marx e Friedrich Engels. Com uma leitura agradável, Leandro Konder trata com profundidade temas fundamentais para todos aqueles comprometidos com a construção de uam sociedade em que o primordial seja o ser humano e não a mercadoria.

Serviço
O marxismo na batalha das idéias
Leandro Konder
200 páginas - R$ 15,00 (em média)
Editora Expressão Popular

Literatura em traços

Há uma relativamente longa tradição de quadrinhos políticos na América Latina. Basta pensar na Mafalda de Quino. O também argentino Perramus, porém, é um caso à parte. Primeiro, por se tratar de uma narrativa longa – na verdade, uma série; segundo, por abordar situações reais (ainda que não de forma realista), como a ditadura militar dos anos 70; terceiro, por seu altíssimo nível gráfico. Mas se a série Perramus é, de certa forma, uma história da ditadura argentina, é também uma homenagem à cultura das Américas, do western aos labirintos de Borges.

Assim, este Dente por dente (176 pp., tradução Michele Strzoda e André de Oliveira Lima), quarto livro do personagem “sem nome” – Perramus é a marca da capa de chuva que usa –, e o mais “aventuresco” de seus álbuns, segundo os próprios autores, envolve, entre outras coisas, uma frenética busca internacional por um dente perdido de Carlos Gardel (após uma tipicamente argentina profanação de sua tumba), envolvendo o próprio Borges (magnificamente retratado).

Serviço
Perramus - dente por dente
Alberto Breccia e Juan Sasturaine
Tradutor: Michelle Strzoda e André de Oliveira
176 páginas - R$ 40,00 (em média)
Editora Globo

Peter e a pedra


Numa época indefinida de um século XXI já avançado, uma banqueira – “a princesa das finanças” –, que vive numa cidade portuária do noroeste europeu, pega um avião com destino à região espanhola da Mancha, que Miguel de Cervantes tornou tão famosa. De lá, dirige-se à Sierra de Gredos. Sai em busca de um escritor que contratara para narrar sua história. Depara-se com uma cidade, imaginária, cujos habitantes – uma curiosa galeria de personagens – experimentam uma perda total de imagens, idéias, ritos, sonhos, ideais e leis. Um efeito do mundo que os rodeia, no qual as mudanças climáticas são um fato, as guerras são contínuas, as sociedades se agrupam em âmbitos locais e os meios de comunicação inundam as vidas cotidianas.

O romance discute o papel dos meios de comunicação que moldam grupos humanos uniformes e vê a propagação de imagens como geradora de grandes vazios de conteúdo. Uma história sobre o entusiasmo perdido e reencontrado. O grande escritor austríaco, sempre nas listas dos nobelizáveis, nos entrega aqui uma vasta reflexão sobre a validade da escrita e sobre a posição de um autor no momento de se entregar a seu ofício: composição de personagens, escolha da ambientação, situação no tempo. Mas para tanto compõe uma obra de grande complexidade que focaliza o mundo imagético de hoje e a perda dos registros tradicionais, como se tudo estivesse borrado, descartado e todos estivessem dessensibilizados e perderam a noção do tempo e dos registros, tratando de recuperá-los. Titanesca literária busca de um autor que se recusa a não se recolocar em cada uma de suas obras.

A perda da imagem ou Através da Sierra de Gredos foi bem recebida pela crítica em língua alemã. O prestigioso jornal Süddeutsche Zeitung considerou a novela como “o grande contra-livro” frente ao realismo fácil que impera hoje na literatura alemã e “a reconquista das pás dos moinhos” de Dom Quixote.

Serviço
A perda da imagem ou Através da Sierra de Gredos
Peter Handke
Tradução: Simone Homem de Mello
584 páginas - R$ 68,00 (em média)
Editora Estação Liberdade

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Um olhar sobre a vida pela morte

Baseado em levantamento do Cemitério Israelita de Vila Mariana, livro conta a saga das primeiras famílias de imigrantes judeus que vieram para o Brasil. Os primeiros judeus de São PauloHá mais de quinze anos que Paulo Valadares e Guilherme Faiguenboim dedicam-se ao estudo da Genealogia, em especial da Judaica. Após longa pesquisa, lançaram o Dicionário Sefaradi de Sobrenomes (prêmio de Melhor Obra de Referência de 2004 nos EUA) e agora estão publicando “Os Primeiros Judeus de São Paulo: uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”, pela Editora Fraiha. A obra será lançada no próximo dia 15 de setembro, a partir das 19 horas, na livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis.

Resultado de mais de dois anos de intensa pesquisa, o livro foi concebido com base em um trabalho de campo feito no Cemitério da Vila Mariana – escolhido por ser o primeiro cemitério erguido pelos judeus de São Paulo, além de informações colhidas em livros e entrevistas. O objetivo inicial era o de elaborar uma lista, um banco de dados. Túmulo por túmulo, as informações contidas nas lápides foram sendo anotadas. Mas, à medida que o trabalho avançava, outras histórias e novas perguntas emergiam nesse pequeno e bem cuidado cemitério.

A curiosidade levou a procurar explicações e assim essa pesquisa foi se transformando num livro de histórias. Histórias que desvendam a vida dos primeiros judeus que vieram para São Paulo e que levantaram os alicerces de sua comunidade. Lá estão os seus nomes, as suas cidades de origem na Europa, porque vieram para São Paulo. O livro relaciona outros cemitérios erguidos por imigrantes da mesma época em Quatro Irmãos (RS), Rio de Janeiro, Recife, Cubatão e Chora-Menino.

São também descritos os costumes funerários judaicos nos tempos bíblicos e na Idade Média, como também no Brasil Colônia, em especial na cidade de São Paulo, e é revelada a evolução dos cemitérios nos últimos dois séculos. Talvez seja a maior pesquisa de uma comunidade imigrante já feita no Brasil. Em edição de luxo, com capa dura e 320 páginas, o livro traz fotos de Niels Andreas, que fotografou o cemitério.

As principais descobertas – A historiografia não dá a devida atenção aos imigrantes que, chegando no período final da monarquia, não se tornaram tão ricos quanto os Lafer-Klabin. “Estudando o cemitério da Vila Mariana, foi possível reconstruir a trajetória daquelas pessoas que fizeram a comunidade judaica ser hoje o que é. Eles têm nome e sobrenome, e o livro mostra isso”, afirma Guilherme Faiguenboim.

Os autores tratam também do fenômeno das polacas e da posição dos judeus a respeito desse delicado e controverso assunto. “O leitor deve saber que de Berlim, Varsóvia e Budapeste vieram muitos imigrantes, porém se surpreenderá ao saber que mais ainda vieram de três pequenas aldeias do norte da Bessarabia: Securon, Britchon e Yedenitz”, completa.
Há um capítulo dedicado aos bessarabers de São Paulo. Há vários relatos sobre as diferenças existentes entre os imigrantes que vinham da Rússia, Polônia, Alemanha, Hungria e Turquia e como eram resolvidos (ou não) os seus conflitos culturais, bem como o papel dos rabinos na primeira metade do século XX.

Serviço
Os Primeiros Judeus de São Paulo
Uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana
Guilherme Faiguenboim e Paulo Valadare
300 páginas - R$ 110,00
Editora Fraiha

Post retirado de http://www.pletz.com

Adélia Prado em narrativa fragmentada

QUERO MINHA MÃE traz uma narrativa fragmentada, como pequenos instantes recortados da vida e da consciência da personagem. Cada pedaço ou momento apresenta uma perspectiva nova da protagonista, por meio de uma linguagem que entremeia o cotidiano, a subjetividade da personagem e os fatos narrados. Tudo isso de forma belíssima

Serviço
Quero minha mãe
Adélia prado
224 páginas - R$ 27,90 (em média)
Editora Record

Truman tardio resurge em sua acidez

"Chocantemente repugnante e completamente difamatório."Tennessee Williams

"Capote morde as mãos que o alimentam."New York Magazine

"Aquele serzinho desprezível e sujo nunca mais vai colocar os pés nas minhas festas."Nedda Logan, atriz

Essas foram algumas das reações despertadas quando Truman Capote (1924-1984) publicou dois capítulos de Súplicas atendidas na revista americana Esquire. Os amigos que se reconheceram entre os personagens deram-lhe as costas, a alta sociedade retratada nessas explosivas páginas o execrou, e o medo das revelações que seriam feitas quando o livro fosse publicado na íntegra colocou a todos em polvorosa.

Polêmico e excêntrico, o brilhante escritor de A sangue frio tinha em mente o projeto nada modesto de escrever um Em busca do tempo perdido moderno. O que aconteceu ao certo ninguém sabe. O fato é que o livro ficou inacabado com a morte do autor. As páginas e páginas que ele declarou ter escrito simplesmente não foram encontradas. A versão de Súplicas atendidas que acabou sendo publicada contém três capítulos, que seguem a história de um escritor-massagista e suas aventuras pelo jet set, esbarrando com personagens reais, como Montgomery Clift e Dorothy Parker. Resta a dúvida se Capote foi tragado pelo próprio talento ou se resolveu testar seus limites.

Serviço
Súplicas Atendidas
Truman Capote
Tradução: Guilherme da Silva Braga
176 páginas - R$ 15,00 (em média)
Editora LPM Pocket

Mediano de sangue

Meridiano de sangue é um romance épico. Nele, McCarthy reinventa a mitologia do Oeste americano para criar uma obra ao mesmo tempo grandiosa e arrebatadora sobre uma terra sem lei, em que o absurdo e a alucinação se sobrepõem à realidade.

Desde as primeiras páginas, o leitor acompanha um rapaz sem nome e sem família, abandonado à própria sorte num mundo brutal em que, para sobreviver, precisa ser tão ou mais violento que seus inimigos. Recrutado por uma companhia de mercenários a serviço de governantes locais, atravessa regiões desérticas entre o México e o Texas com a missão de matar o maior número possível de índios e trazer de volta seus escalpos.

McCarthy parte de fatos reais — a caçada aos índios, o destacamento de assassinos liderado pelo sanguinário John Joel Glanton — para compor uma obra que transcende a mera ficção histórica. Conduzidos por Glanton e o juiz Holden — uma figura quase sobrenatural, e um dos grandes personagens da literatura americana no século XX —, esses homens, que julgam já terem visto todos os horrores possíveis, irão aos poucos se aprofundar no verdadeiro inferno.

Serviço
Meridiano de sangue
Cormac McCarthy
250 páginas - R$ 49,90 (em média)
Editora Alfaguara

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Marx e os jardins

O grande artista plástico e paisagista brasileiro Burle Marx (1909-1994), criador do projeto paisagístico do Aterro do Flamengo, é contemplado com dois excelentes lançamentos editoriais. O primeiro "Burle Marx" da Cosac & Naify, aborda a trajetória do paisagista revista pela historiadora Vera Beatriz Siqueira. Seus principais trabalhos são passados em revista em 16 capítulos fartamente ilustrados, que captam todas as nuanças e a permanência dessas criações. Além dos jardins monumentais da baía da Guanabara, o livro destaca seu trabalho em Brasília e em fazendas do interior do país.

Já o segundo livro, "À mesa com Burle Marx" da Editora Codice é fruto de cuidadosa pesquisa, com excelente qualidade gráfica e editorial, o livro nos oferece as receitas do grande mestre, que eram servidas aos incontáveis amigos e admiradores no sítio Santo Antônio da Bica (RJ), um santuário ecológico construído pelo artista e doado ao patrimônio público.Enriquecem a edição fotografia dos pratos, dos ilustres e anônimos companheiros de mesa, depoimentos, ilustrações, desenhos, pinturas e anotações de Burle Marx. Enfim, um novo e saboroso olhar sobre este brasileiro que personificou como poucos a alma criativa, generosa e a, acima de tudo, bem humorada de seus conterrâneos.Boa leitura e bom apetite.

Serviço
Burle Marx
Vera Beatriz Siqueira
128 páginas - R$ 66,00 (em média)
Editora Cosac & Naify

À mesa com Burle Marx
Cecília Modesto e Cláudia Pinheiro
129 páginas - R$ 88,00 (em média)
Editora Codice

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O teatro da revolução Russa

Obra-prima da arte de vanguarda russa e ponto alto da produção teatral de Maiakóvski, a comédia fantástica O percevejo — redigida no final de 1928 e encenada no ano seguinte — assinala também um ponto de inflexão na trajetória do poeta. Neste texto, o entusiasmo de Maiakóvski com a Revolução de 1917 dá lugar a uma visão crítica do futuro do socialismo, expressa numa sátira contundente que mistura temas jornalísticos, jingles publicitários, mitos pessoais, canções, política, amor e ficção científica.

Apesar do sucesso da peça, a montagem original de O percevejo — com cenários de Ródtchenko, trilha sonora de Shostakóvitch e direção de Meyerhold — foi duramente criticada por dirigentes partidários que acusavam Maiakóvski de ser formalista e pouco didático, o que contribuiu para o desgaste do poeta, que cometeria suicídio um ano depois, em 1930.

No Brasil, a peça foi traduzida e, em 1981, levada ao palco por Luís Antonio Martinez Corrêa. É esta tradução — revista por Boris Schnaiderman, também autor do posfácio e de uma cronologia sobre a vida e a obra do poeta — que agora é oferecida ao leitor, enriquecida com um texto inédito em português do próprio Maiakóvski sobre O percevejo.

Serviço
O percevejo Comédia fantástica em nove cenas
Vladímir Maiakóvski
Tradução: Luís Martinez Corrêa
Cotejo com o original russo e posfácio de Boris Schnaiderman
112 páginas - R$ 29,00 (em média)
Editora 34

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Os miseráveis.


Versão definitiva em português de Os miseráveis, de Victor Hugo (1802- 1885) . romance magistral que representou para a literatura "o mesmo que a Revolução Francesa na História" (segundo o crítico Sérgio Paulo Rouanet) ., em tradução inteiramente revista de Frederico Ozanam Pessoa de Barros e adequada à leitura contemporânea, apresentação de Renato Janine Ribeiro, incluindo 816 notas de pé de página, elucidativas do contexto histórico e cultural da França no século XIX.

Obra que ilustra à perfeição a ideia de clássico, condensa na mesma história reflexões sobre um leque variado de temas, com análises extensivas de ciência política, sociologia, com intenso lirismo. O fio condutor é o personagem de Jean Valjean, que, por roubar um pão para alimentar a
família, é preso e passa 19 anos encarcerado. Solto, mas repudiado socialmente, é acolhido por uma noite por um bispo. O encontro transforma radicalmente sua vida e, após mudar de nome, Valjean prospera como negociante de vidrilhos, até que novos acontecimentos reconduzem-no ao calabouço.

A popularidade de Os miseráveis pode ser constatada ainda hoje pelas diversas adaptações que o livro recebeu: foram mais de vinte para o cinema, outras dezenas para o teatro, entre elas a de um musical.

Serviço
Os miseráveis
Victor Hugo
Tradução: Frederico Ozanam Pessoa de Barros
Apresentação: Renato Janine Ribeiro
1280 páginas - R$ 99,00 (em média)
Editora Cosac & Naify

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Livros infantis que falam de adultos

Dois fantásticos livros 'infantis' são o destaque da Cosac & Naify, quem vem suprindo uma demanda no mercado editorial nacional.

Leocádio, o leão que mandava bala pode não ser o mais famoso, mas trata-se do livro predileto do autor. Ao enfrentar um caçador, Leocádio descobre o poder da arma de fogo e suas habilidades de exímio atirador. Da noite para o dia, transforma-se em um astro internacional, despertando curiosidade. Os apelos do mundo do consumo e a aquisição de novas tecnologias o afastam da natureza. Estas são algumas questões que atormentam o pobre leão rico. Boa munição para o professor abrir o apetite do jovem leitor.

já o prêmio Hans Christian Andersen pelo conjunto da obra, o alemão Wolf Erlbruch dá sequência, neste lançamento, às suas inquietações sobre o nosso lugar no mundo. Se em A grande questão procurava respostas para "por que viemos ao mundo?", em O pato a morte e a tulipa questiona "para onde vamos" por meio de uma amizade incomum. Se dizem que a morte nunca atrasa, o autor nos mostra que, ao conhecer e se encantar com um pato, ela perde a noção do tempo e até desfruta um pouquinho da vida. O pato a ensina a mergulhar no lago, subir em árvores e tirar uma soneca. E onde a tulipa entra nesta história? A resposta também cabe ao leitor.

Serviço
Leocádio - o leão que mandava bala
Shel Silverstein (texto e ilustrações)
Tradução: Antonio Guimarães
112 páginas; 85 ilustrações - R$ 42,00 (em média)
Editora Cosac & Naify

O pato, a morte e a tulipa
Wolf Erlbruch (texto e ilustrações)
Tradução: José Marcos Macedo
32 páginas; 25 ilustrações - R$ 35,00 (em média)
Editora Cosac & Naify


Os traços sobre nós

O primeiro livro de Shel Silverstein, de 1964, é o seu único em cores. Nele, o autor adentra o imaginário infantil e convida as crianças a rirem dos próprios medos. Fuja do Garabuja é uma coletânea de 44 poemas sobre monstros e criaturas imaginárias bem incomuns, como o Gruto, um bicho bom de disfarce; o Gradiardo, com seus dentes em fila dupla e garras afiadas; o Grício, gordinho de olhos vermelhos, e outros tantos que somente alguém tão criativo como Silverstein poderia criar, com um humor sutil que cativa crianças e adultos. A simplicidade poética e o minimalismo característicos do autor ganham nesta obra o colorido das ilustrações em aquarelas. Para Shelebrar!

Serviço
Fuja do Garabuja
Shel Silverstein (texto e ilustrações)
Tradução: Alípio Correia de Franca Neto
64 páginas; 43 ilustrações; - R$ 45,00 (em média)
Editora Cosac & Naify

O rosto de Marcelinho e o mundo a nossa volta

Um dos mestres do cartum, referência mundial ao lado de nomes como Steinberg, o francês Jean-Jacques Sempé finalmente ganha edição em português de um livro de sua autoria. Dono de um traço inconfundível, e colaborador de revistas como a The New Yorker, Sempé lida com temas curiosos usando o humor sutil. Como neste livro, Marcelino Pedregulho, o menino que enrubesce sem nenhum motivo. Todos o acham muito diferente, mas Marcelino não entende o porquê. Então, ele se isola das outras crianças para poder brincar em paz. Até que conhece um vizinho muito estranho: Renê Rocha, o garoto violinista que espirra todo o tempo, mesmo sem estar resfriado. Uma grande e sincera amizade nasce a partir das diferenças."Marcelino Pedregulho, de Jean-Jacques Sempé, esbanja simplicidade, economia de traços e cores, precisão das palavras e, principalmente... sabedoria."

ODILON MORAES "O cartunista Sempé é um pouco como Briggite Bardot e Charles Aznavour. Trata-se de uma instituição nacional que adquiriu um apelo universal permanecendo essencialmente francês."THE NEW YORK TIMES" Tal como os meus, os seus desenhos não produzem gargalhada imediata, mas devem ser observados com muita atenção, inclusive pensados. Digamos que o considero um irmão não de leite, porque só estive uma vez com ele, mas sim de tinta."QUINO"Conhecer o trabalho de Jean-Jacques Sempé leva a colocar um ponto final na ideia de que o cartum e as artes plásticas não podem coexistir harmonicamente na mesma obra. Desde 1978, Sempé, tesouro nacional na França, contribuiu com mais de cem capas e outros tantos cartuns para a The New Yorker. Ele é um talento ímpar, combina a sofisticação de Steinberg, o olhar certeiro de Thurber, e o senso de luz e cor de um mestre da pintura."THE NEW YORKER

Serviço
Marcelinho Pedregulho
Jean-Jacques Sempé (texto e ilustrações)
Tradução: Mario Sergio Conti
128 páginas; 65 ilustrações - R$ 45,00 (em média)
Editora Cosac & Naify

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Repensar o agora pelos olhos do passado

A construção dos conceitos de cidadania e nação no Brasil do século XIX são analisados em Repensando o Brasil do Oitocentos, organizado por José Murilo de Carvalho e Lúcia Bastos Pereira das Neves. O livro é resultado dos estudos de um grupo de historiadores de universidades do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. Há mais de cinco anos, os estudiosos dedicam-se ao tema e trazem novas fontes de análise e interpretação para o debate.

Os historiadores mostram o importante papel de agentes como imprensa e movimentos culturais na formação dos conceitos de nação e cidadania no Brasil.

A publicação levanta questões inéditas sobre a construção da nação e da cidadania no século XIX. No estudo, a cultura tem um papel fundamental no processo, assim como a imprensa. Os historiadores procuraram ampliar as fontes de pesquisa sobre os dois temas.

O livro mostra como o espaço político também é lugar para as manifestações artísticas, que são fundamentais para a criação das identidades nacionais e étnicas. As práticas e os valores sociais foram amplamente abordados.

Os historiadores concluíram que o conceito de cidadania foi imposto à população. A ação do Estado foi vista como uma interferência no modo de vida das pessoas. Porém, de acordo com o estudo, os movimentos de resistência não devem ser entendidos como um repúdio às novidades, mas sim uma afirmação de seus direitos.

A imprensa foi um agente fundamental na sociedade brasileira da época. A cidadania e a própria nação emergente foram fortemente influenciados pelos escritos da época. A História do Brasil-Império foi moldada e hoje pode ser entendida pelos escritos da época.

A escravidão e a idéia de liberdade também são abordadas no livro, assim como a realidade de política de países da América Hispânica do século XIX. A guerra é outra fonte que leva ao entendimento da construção da nação.

Em Repensando o Brasil do Oitocentos, os historiadores mostram que os conceitos de cidadania e nação estão em constante mutação desde seu surgimento até os dias de hoje.


Serviço
Repensando o Brasil do Oitocentos
Vários Autores
602 páginas - R$ 60,00
Editora Civilização Brasileira

Quando o umbigo é um retrato do mundo

Casados há quarenta anos, Maggie e David Loony decidem se separar. Vivendo isolados numa casa de praia, afastados dos filhos, os dois anunciam que não se amam mais. A notícia inesperada é motivo para a família se reunir depois de muito tempo, e pela última vez.

Como fantasmas se arrastando silenciosamente pela casa, Maggie e David não amenizam o sofrimento dos filhos com desculpas ou explicações; apesar da dor escancarada, estão convictos sobre o divórcio.

Dennis, o mais velho, inicia uma procura alucinada por pistas que o ajudem a entender os motivos da separação. Passa os dias revirando baús empoeirados, arrastando-se por túneis escondidos pela casa e decifrando cartas antigas trocadas pelos pais. Na tentativa de encontrar respostas para suas angústias, ele se vê obrigado a refletir sobre seu próprio casamento.

Claire, a filha do meio, aceita com calma a separação. No entanto, essa aparente tranquilidade esconde uma mãe temerosa, aflita com tudo que diz respeito à filha, Jill. Os dias na casa da infância servirão para que ela se reaproxime da adolescente.

É o caçula Peter, no entanto, quem melhor representa o lado disfuncional da família Loony — os “Loony Buraco Negro”, em que “cada membro é uma entidade flutuante e separada dos outros membros”. Solitário, ele se considera o “clichê do caçula”, um estranho para o resto da família. Retratado como um sapo, vive numa luta infinita contra a insegurança paralisante.

Escrito quando Dash Shaw tinha 23 anos, Umbigo sem fundo narra com maturidade surpreendente — e uma boa dose de humor — os conflitos individuais e familiares dos Loony, que vêm à tona com o divórcio. Sem complacência, o autor investiga os movimentos mais sutis e os aspectos mais recônditos que tornam único o sofrimento de seus personagens. Com maestria, Shaw utiliza recursos como espaços em branco, variação no tamanho dos quadrinhos e cortes rápidos em cenas simultâneas que dão à narrativa um ritmo que é a um só tempo dinâmico e suave, em que a delicadeza do traço revela cargas máximas de tensão.

Ao final, as imagens detalhadas de Shaw mostram que há algo insondável nas relações humanas, como a misteriosa decisão dos velhos Loony que só eles são capazes de entender.

Serviço
Umbigo sem fundo
Dash Shaw
Tradução: Erico Assis
720 páginas - R$ 59,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

Pequenos retratos da humanidade


"A casa do menino não é uma só. [...] É uma casa onde se põe lenha pra lenha pegar fogo e depois virar carvão. A casa do menino não é dele, não foi ele quem fez. É a casa do fogo."

De forma poética e original, a história do menino carvoeiro é narrada por um inusitado narrador: um marimbondo. Ao mesmo tempo que vai relatando a suas próprias experiências, ele observa o cotidiano do menino: o árduo trabalho de fazer os fornos, as conversas com outro menino, a necessidade de escapar dos fiscais.

As expressivas ilustrações do autor captam com sensibilidade e força a vida dura e cinzenta desses pequenos trabalhadores.

Serviço
Carvoeirinhos
Roger Mello
60 Páginas - R$ 45,00 (em média)
Editora Companhia das letras

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

História do Design Gráfico

História do design gráfico, de Philip Meggs (1942 - 2002), é o maior e mais ambicioso lançamento da Cosac Naify na área de design gráfico. Referência obrigatória para estudiosos e profissionais desde sua primeira edição em 1983, é o registro histórico mais abrangente já produzido sobre o assunto. Em edição revisada e atualizada pelo historiador e designer Alston W. Purvis, os 24 capítulos fartamente ilustrados por 1300 imagens comentadas, que se estendem por mais de 700 páginas, percorrem comfluidez, clareza e rigor o vasto arco da comunicação através de meios visuais que vai da pré-história à era da informação, analisando a produção de seus protagonistas mais relevantes.

O livro divide-se em cinco partes, que tratam de períodos de tempo progressivamente mais curtos e adensados. Prólogo ao design gráfico parte dos primeiros sinais produzidos pelo homem, passando pela invenção da escrita e das primeiras técnicas gráficas e chegando aos manuscritos iluminados que permaneceram em produção até o século XV. Um Renascimento impresso relata a chegada das técnicas orientais de impressão à Europa e a revolução que sofreram nas mãos de visionários como Gutenberg, espalhando-se pela Itália, França, Holanda, Inglaterra e Espanha e produzindo momentos de verdadeira genialidade tipográfica ao longo de mais de quatro séculos.

A ponte para o século XX trata das transformações e conflitos impostos pela Revolução Industrial, num cenário convulsionado por invenções como a fotografia, a litografia offset e a composição mecânica, de um lado, e pelos movimentos arts & crafts e Artnouveau, de outro. O período modernista traça o percurso que leva dos cubistas, futuristas e dadaístas à depuração formal, produtiva e ideológica que encontrou na Bauhaus a síntese de suas intenções, migrando por forçada guerra para o cenário fortemente comercial dos EUA. Fechando o volume, A era da informação abre o leque de desdobramentos do modernismo, dos representantes da escola suíça e dos grandes sistemas de identidade corporativa aos dissensos do design pós-moderno e à revolução digital.

Embora o espectro coberto por História do design gráfico seja verdadeiramente monumental, seu discurso é construído com relatos e exemplos sucintos e cuidadosamente selecionados, prestando-se tanto à pesquisa conceitual como à investigação factual e de repertório. Uma extensa bibliografia dividida por capítulos facilita o aprofundamento dos temas abordados.

Serviço
História do Design Gráfico
Philip B. Meggs
Edição revista e atualizada por: Alston W. Purvis
Tradução: Cid Knipel
Revisão técnica: André Stolarski
720 páginas - 1300 ilustrações - R$ 198,00 (em média)
Editora Cosac & Naify

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Um pouco do outro

Com fatos retrospectivos e atuais, Brumas do Tibete, novo livro da “Série 21” e lançamento da Publifolha, expõe os surpreendentes contrastes entre realidades tibetanas e a imagem criada para a mídia e a opinião pública mundial, por meio século de propaganda, relações públicas, lobby e sutil desinformação.

O livro escrito por Aldo Pereira, colaborador especial da Folha de S.Paulo e que a convite do jornal foi ao Tibete preparar uma reportagem especial, apresenta a atual situação do local além dos principais aspectos de sua cultura e população.

O título tenta substituir a visão idílica que países ocidentais evocam sobre o Tibete como um país remoto, quase miragem de imagens indistintas, vagamente evocativas de um povo enlevado pela espiritualidade destilada em séculos de isolamento.

Para o autor, o livro não tem a pretensão de dissipar por inteiro as curiosidades mundiais sobre o país. “Tibete sempre será um assunto fascinante, misterioso e vasto como os abismos de lá. Espero trazer apenas elementos suficientes para indicar a falsidade essencial da ideia que fazemos dessa terra.”

Brumas do Tibete faz parte da “Série 21”, uma coleção de livros breves, no formato de ensaio, reportagem ou entrevista, que tratam de temas urgentes que definem este início de século. A série conta ainda com os livros A Escalada da Carga Tributária, do jornalista Gustavo Patu, Terror Global, do jornalista Demétrio Magnoli, Humanidades Sem Raças?, do doutor em genética humana Sérgio D. J. Pena, A Formação da Culinária Brasileira, do sociólogo Carlos Alberto Dória, e Eleições 2.0, do diretor de tecnologia Antonio Graeff.

Serviço
Série 21 – Brumas do Tibete
Aldo Pereira
104 páginas - R$ 12,90
Publifolha

O inconsciênte coletivo

Dentre os primeiros exploradores do inconsciente, o suíço Carl Gustav Jung (1875 – 1961) é certamente um dos mais contraditórios. Ao longo de sua vida, Jung experimentou sonhos periódicos e visões com notáveis características mitológicas e religiosas, os quais despertaram o seu interesse por mitos, sonhos e a psicologia da religião.

Para entender as idéias do “lado B” da pscicologia criada por Freud, o 74º volume da coleção Folha Explica, da Publifolha, sintetiza os principais tema da obra de Jung. Esse é o terceiro livro que se empenha em explicar a psicanálise, ao lado de Folha Explica Freud e Folha Explica Lacan.

Considerado, ainda hoje, um místico, confuso e simpatizante do nazismo e bígamo, Jung aliou-se a Freud, separou-se e logo depois criou uma escola própria, ampliada e praticada por muitos ao redor do mundo.

As idéias de Jung trabalham a hipótese de que o Ocidente chegou a um ponto no qual é necessária a retomada da vida interior, preocupação que sempre foi mais elaborada pelo Oriente e que permite a compreensão das mudanças humanas sob o poder das religiões, alguma atividade mísitca ou das filosofias de interesse coletivo.

“Na segunda metade do século 20, cresceu o interesse do Ocidente pelo Oriente. Médicos acupunturistas estão em todas as capitais, existem franquias de cursos de ioga e várias escolas de meditação - os livros de Paulo Coelho exploram temas místicos e vendem como água. Ao mesmo tempo, as idéias de Jung, as religiões e o interesse pela mística ressurgem com força inesperada”, avalia o autor de Folha Explica Jung, Tito R. de A. Cavalcanti.

Apesar de seus interesse pelas religiões, Jung nunca se refere à adesão a alguma religião específica como necessária e nem defende algum tipo de atividade mística. O livro mostra que ele sempre se considerou um cientista e como seus estudos retratam, em si, os fenomênos religiosos como realidades psíquicas.

Serviço
Folha Explica - Jung
Tito R. de A. Cavalcanti
96 páginas - R$ 17,90 (em média)
Publifolha

Para entender um pouco de nós

Melanie Klein (série “Folha Explica”, vol. 76), lançando pela Publifolha, revela as principais idéias de Melanie Kelin (1882-1960). Esse é o quarto livro sobre psicanálise da série, ao lado de Freud, Lacan e Jung.

Os autores e pscicanalistas Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Luís Claudio Figueiredo mostram que Melaine Klein foi, depois de Freud, quem mais estudou e contribuiu para que se compreenda o funcionamento psíquico inconsiente e as experiências que desafiam todas as medidas de bom senso. Os principais discípulos de Klein são Wilfred Bion (1897-1979) e Donald Winnicott (1896-1971).

“Melanie Klein ensinou a pôr de lado a razão e o senso de medida para compreender o caráter autônomo e demoníaco das fantasias inconscientes e angústias”, revela o autor Luís Claudio.

Para os autores, a canção “O Que Será”, de Chico Buarque, segue como exemplo para se compreender os estudos de Melanie Klein, pois fala daquilo “que não tem medida nem nunca terá”, as onipotentes e desmedidas paixões – amor, ciúme, vontade de controle e posse, ambição, gula, inveja, raiva, ódio, desejo de morte e destruição – com seu caráter indomável, ilimitado e insaciável. É um mundo de desejos, medos, culpas e angústias fantasmagóricos.

A partir da década de 20 até o fim de sua trajetória, Melanie Klein procurou desvendar a pscanálise infantil e questões cruciais como o desejo e a inveja. Leia um trecho do estudo da autora.

Meu trabalho ensinou-me que o primeiro objeto a ser invejado é o seio nutridor, pois o bebê sente que o seio possui tudo o que ele deseja e que tem um fluxo ilimitado de leite e amor que guarda para sua própria gratificação: assim é [também] o primeiro objeto a ser invejado pela criança...

Serviço
Melanie Klein
Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Luís Claudio Mendonça Figueiredo
112 páginas - R$ 17,90 (em média)
Publifolha

Simples escritos sobre Lacan

São Paulo, 26 de setembro de 2007 – “Bastam 10 anos para que o que eu escrevo se torne claro para todos.” Com essas palavras, Jacques-Marie Émile Lacan (1901-81) encerrava, dez anos antes de sua morte, uma rara entrevista dada à televisão francesa.

Autor reconhecidamente difícil, de poucos textos redigidos, Lacan tinha tudo para ser esquecido. No entanto, suas idéias tornaram-se ponto de passagem obrigatória para os interessados na clínica psicanalítica.

O volume 73 da coleção Folha Explica, da Publifolha, sintetiza os principais temas da obra do psicanalista francês, voltando-se para aqueles que querem compreender a filosofia, a teoria social, a política, a estética e a crítica da cultura no início do século 21.

Para o autor Vladimir Safatle, professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), Lacan pode ser considerado, talvez, o único psicanalista, juntamente com Freud, cuja obra é obrigatória para aqueles com preocupações não se restringem apenas à clínica, mas dizem respeito a um campo amplo de produções socioculturais.

“Não se trata apenas de insistir na relevância de suas posições no debate sobre a clínica psicanalítica nas últimas décadas. E sim, de sublinhar como Lacan também se tornou um interlocutor privilegiado em reflexões contemporâneas, como a teoria social, a política e a cultura”.

Lacan é considerado, por muitos psicanalistas, o último de sua geração a repensar todo o sistema fruediano, tornando-se um dos grandes intérpretes de Freud, especialmente quando considera o inconsciente como uma linguagem. É também conhecido por ter reduzido o tempo de duração das sessões de análise, trazendo a defesa de uns e a reprovação de outros.

Serviço
Folha Explica - Lacan
Vladimir Safatle
96 páginas - R$ 17,90 (em média)
Publifolha

Freud, pequena introdução didática

Por conta das comemorações que se seguem em todos os continentes, celebrando os 150 anos de nascimento do pai da psicanálise, Sigmund Freud, a Publifolha relança o livro Folha Explica Freud, escrito por Luiz Tenório Oliveira Lima.

O livro conta a vida e a obra de Freud e o desenvolvimento da psicanálise. Descreve o trabalho de Freud com Charcot, médico francês que usava hipnotismo para tratar pacientes de histeria, e explica como, a partir de suas pesquisas, descobriu o inconsciente e tentou desvendar seu funcionamento.

A linguagem clara do Folha Explica Freud esmiúça os principais conceitos da psicanálise para estudantes e leitores comuns. O estudo da sexualidade infantil, a formulação do complexo de Édipo, a libido, a neurose, a perversão e o desenvolvimento da psicanálise são mostrados no livro.

Luiz Tenório Oliveira Lima fala como Freud chegou à idéia de mal-estar da civilização após observar a Primeira Guerra. E discute, ainda, a evolução da psicanálise a partir dos discípulos de Freud.

Serviço:
Folha Explica Freud
Luiz Tenório de Oliveira Lima
79 páginas - R$ 17,90 (em média)
Publifolha

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Anita e suas cores

Este livro nos faz companheiros da vida de Anita Malfatti, tornando-nos espectadores da efervescência cultural da Alemanha e dos Estados Unidos das primeiras décadas do século 20 e do choque causado pela Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922.

O modo de lidar com a deficiência física, os mistérios da vida amorosa e a especulada paixão de Anita por Mário de Andrade, temas fundamentais da biografia da pintora, também estão aqui presentes, iluminando ainda mais o retrato desta artista de grande importância para a história da arte brasileira.

Serviço
Anita Malfatti, a Festa da Cor
Ani Perri Camargo
164 páginas - R$ 62,00 (em média)
Editora Terceiro Nome

Todos nós somos Fausto

Último grande poema dos tempos modernos", no dizer de Otto Maria Carpeaux, o Fausto de Goethe está para a modernidade assim como a Comédia de Dante para a Idade Média. Representa não só a obra máxima de seu autor, mas a suma do conhecimento e das aspirações de sua época.

A presente edição do Fausto I, bilíngue, devolve ao leitor brasileiro a elogiada tradução de Jenny Klabin Segall, isenta dos equívocos tipográficos acumulados em sucessivas reedições, e acrescida de apresentação, comentários e notas de Marcus Vinicius Mazzari. Além disso, traz ainda as famosas litografias de Delacroix e o chamado "Saco de Valpúrgis" — versos blasfemos que, num gesto de autocensura do próprio Goethe, permaneceram à margem da edição canônica de 1808, agora publicados pela primeira vez em nosso país.

Serviço
Fausto - 1ª parte Uma tragédia
Johann Wolfganga von Goethe
Tradução: Jenny Klabin Segal
Ilustrações: Eugène Delacroix
Edição bilíngue
552 páginas - R$ 64,00 (em média)
Editora 34

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O mestre da fotografia por ele mesmo


As imagens captadas pelas lentes de sua Leica deram um novo sentido ao cotidiano, nas fotos do dia-a-dia das cidades de uma Europa assolada pela guerra, assim como nos retratos de pintores e escritores. Como repórter fotográfico, viajou pelo mundo registrando momentos decisivos da história da vitória dos comunistas na China ao último retrato de Gandhi, minutos
antes de seu assassinato.

Henri Cartier-Bresson: fotógrafo, publicado em 1979, traz 155 fotos selecionadas pelo autor para representar sua extensa produção. No livro, Bresson agrupou as imagens em seis módulos, de forma inesperada e surpreendente. Se em livros anteriores, como Les Danses à Bali (1954), D.une Chine à l.autre (1954) e Vive La France (1970), sua obra era apresentada em recortes temáticos específicos, em Henri Cartier-Bresson: fotógrafo, ele abre espaço para a reflexão do leitor, convidado a estabelecer relações inéditas e pessoais sobre as fotos. Segundo Augusto Massi, editor da Cosac Naify, Bresson opta em promover o encontro de duas realidades distantes, ao invés de estabelecer um critério cronológico e de antologia ao volume.

Um dos principais poetas da língua francesa hoje, Yves Bonnefoy também contribui para um entendimento da obra de Bresson no prefácio assinado por ele. Bonnefoy guia o leitor por novas e diversas interpretações, como a que revela o caráter menos histórico e mais metafísico das fotos do autor. Cartier-Bresson encontrou-se ao longo da vida no coração dos acontecimentos mais marcantes da época, na Alemanha por ocasião da abertura dos campos, na China no fim do Kuomintang e, depois, na ascensão de Mao, e ao lado de Gandhi a poucos instantes de sua morte
ou durante os primeiros protestos no Alabama. Mas seria compreendê-lo muito mal pensar que ele privilegiou esses momentos por seu valor histórico, como o faria o fotógrafo de reportagem, pois também é sua lição que uma anciã à porta de casa tem o mesmo peso que o exército em marcha ou o sábio que vai morrer, e que também não é porque ela se cobre com a bandeira estrelada que é preciso buscar ali uma imagem da América, pois a bandeira dissipa o seu significado nessa equivalência de tudo a tudo que Cartier-Bresson faz ascender de suas sondagens. O acontecimento pode estar lá, na foto, mas é como que deslocado por alguns milímetros. metafísicos que bastarão para desfazer sua primazia sobre a vida.

Serviço
Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo
Organização: Henri Cartier-Bresson e Robert Delpire
Tradução: Célia Euvaldo
344 páginas - 155 fotografias P&B - R$ 170,00 (em média)
Editora Cosac & Naify


A vida em Ruanda pelos olhos de uma mulher

Apesar dos avanços nas questões femininas, a realidade das mulheres em países marcados por conflitos étnicos e religiosos ainda é bastante dura. Em Ruanda, país africano que aos poucos se recupera de um genocídio, meninas e mulheres adultas sofrem com a falta de oportunidades para estudar e trabalhar. Este cotidiano é o cenário do romance de estreia da zambiana Gaile Parkin, Assando bolos em Kigali.

A obra é protagonizada por Angel Tungaraza, uma mulher no início da menopausa que muda com o marido e os cinco netos da Tanzânia para Ruanda. A dona de casa logo decide abrir seu próprio negócio para melhorar a renda familiar e começa a vender bolos decorados sob encomenda para a vizinhança, composta em sua maioria por estrangeiros. Dividida entre questões de ética profissional e fantasmas de seu passado, Angel se envolve na rotina de sua pequena comunidade e atua como um agente de mudança, resolvendo conflitos domésticos, promovendo uniões amorosas e compartilhando segredos.

Mesmo com todas as dificuldades enfrentadas por seus vizinhos, o negócio vai bem – e uma boleira só consegue obter sucesso se as pessoas tiverem motivos para comemorar. Ao perceber a capacidade de superação daqueles que a cercam, Angel aprende a lidar com suas chagas e a tolerar as diferenças culturais de seu novo país.Assando bolos em Kigali é um romance leve e delicado que mostra, sobretudo, o poder da mudança, seja física, como a menopausa de Angel; política, como as que se iniciam em Ruanda; ou mais profunda, psicológica e cultural, somente possível por meio da solidariedade entre os seres humanos.

Serviço
Assando bolos em Kigali
Gaile Parkin
Tradução: Helena Londres
320 páginas - R$ 38,00 (em média)
Editora Globo

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A arte a serviço da vida

Um longo percurso geográfico – e espiritual – foi tomado pela fotógrafa Claudia Andujar desde sua saída, em 1944 , ainda aos 13 anos, da cidade romena de Oradea, então sob o domínio húngaro, até suas fotografias dos índios Yanomami registradas entre 1981 e 1983, e sua publicação no livro Marcados, agora em 2009. Depois de mais de sessenta anos, Claudia Andujar propõe, através de sua arte fotográfica, uma interpretação de sua herança paterna, revisitando o holocausto e seus desdobramentos, que nesta ínfima centelha temporal se unem aos índios Yanomami. Uma longa caminhada que ainda está longe de vislumbrar seu término, distante de encontrar seu entendimento e, talvez, sua paz.

As marcas começam em 1944 com a estrela de Davi, (o Mogen David) costurada nos trajes de seus pares, mais precisamente no peito deles, amarela e bem visível, a não deixar dúvidas. Deste tempo de crueldades restou um retrato de um colega da escola por quem se apaixonou, guardado por muitos anos. Peças que ainda reverberam na fotógrafa e que foram acolhidas ao longo de sua importante obra.

O retrato não sobreviveu até 1981, quando a fotógrafa acompanhou os médicos Rubens Brando e Francisco Pascalichio, da Comissão pela criação do Parque Yanomami, às entranhas da Amazônia brasileira. Era o tempo que ultrapassava o “milagre brasileiro” dos anos 70 e a ideia era criar uma sistemática de saúde que não permitisse reduzir as aldeias a alguns poucos indivíduos, como vinha acontecendo.

Os “retratos marcados” surgiram de anotações para um registro médico dos Yanomami. Era necessário identificá-los. Uma placa era pendurada no pescoço, como aqueles números de plástico antigos, iguais aos dos passaportes ou das fichas criminais da polícia. Uma nova identidade era criada para crianças, adolescentes, adultos e velhos Yanomami.
Na série de retratos Claudia Andujar não tenta exorcizar o método, muito menos justificá-lo. Para ela, tratava-se de um esforço na busca da sobrevivência destes seres humanos. Aquela mesma busca a que assistira nos judeus contemporâneos de sua infância. Um sentimento que desperta não só ambiguidade, mas uma digressão moral cujo papel na fotografia se torna extremamente importante.

Os Yanomami “marcados” de Claudia Andujar não estão no caminho da morte, como ela mesmo ressalta. Ao contrário, seguem o caminho da vida. O registro de um ato humanitário, que encontra anos depois um conceito estético que transpõe o registro documental. A professora e escritora Stella Senra, em seu texto “O último círculo”, ensaio que acompanha o livro, alerta para a raridade da relação entre postura ética e estética. Para a pensadora, a obra da fotógrafa é paradigmática nesse sentido.

O artista parisiense Christian Boltanski (que nasceu em 1944) em sua obra Le suisse morts (1990) ou em muitas outras em que ele se apropria de retratos fotográficos, relembra em sua sintaxe o holocausto. Neste caso, diz o artista, o retrato fotográfico se reporta sempre a alguém desaparecido. No sentido oposto, sem dúvida, o caráter ontológico suscitado pelos retratos de Claudia Andujar gera a questão proposta a priori pela fotógrafa: a preservação daqueles indivíduos.

Nestes belíssimos retratos, Claudia Andujar nos proporciona uma síntese de uma grande história que, se às vezes adquire contornos trágicos, às vezes também nos devolve a crença na restauração da ordem natural. Também confirma que na relação intrínseca entre a arte fotográfica e a realidade, a subjetividade ora torna-se presente, ora ausente por trás de cada olhar. A questão da numeração de cada indivíduo – tão cara ao passado da fotógrafa – por suas mãos se transmuta da morte para a vida.

Estas alternativas fazem parte da dinâmica do processo determinado pela fotógrafa. Para Stella Senra, Claudia Andujar está “atenta ao modo como cada Yanomami se põe ou é posto diante da câmera, ao seu comportamento diante do dispositivo fotográfico”. Mais adiante, ela também registra que a documentação e a ação fotográfica não se relacionam do mesmo modo, sendo o ato de fotografar uma “exigência da ação”.

Neste aspecto, cada retrato se distancia do mero registro antropológico. Cada Yanomami se transforma em protagonista da obra da fotógrafa, assim como assume seu papel de importância ao se posicionar com atitude. Esta confere reverência, ora irreverência. Em alguns momentos expressam sua intranquilidade, para instantes depois revelarem até mesmo certa sensualidade. Podem exibir tudo, menos a indiferença diante da câmera.

O que realmente importa para Claudia Andujar é o “ser” Yanomami. Não há dúvida que a câmera fotográfica tornou-se uma prótese através da qual ela se manifesta, não com militância, mas sim como credo. Neste sentido, as detalhadas informações escritas pela fotógrafa nas oito páginas anexadas na edição constituem-se numa liturgia a ser seguida no acompanhamento de suas imagens.

Antonino, o protagonista de Italo Calvino no conto “A aventura de um fotógrafo” chega a uma conclusão: “Talvez a verdadeira fotografia seja um monte de fragmentos de imagens privadas, sobre o fundo amarrotado dos massacres e das coroações”. Não há dúvida que alheio à ficção, o retrato fotográfico de Claudia Andujar é uma expressão maior deste relato. Que a sua colocação no tempo e espaço definido por ela balizam o comportamento do presente e do futuro.

Difícil não pensar em todos estes Yanomami retratados por Claudia Andujar como “fragmentos” de uma grande história que ela vem mantendo viva desde sua infância até os dias de hoje. E, não fosse por ela, a sempre juntar estes importantes pedaços de sua alma, certamente os mesmos não passariam de imagens amarrotadas e caídas no esquecimento.

Serviço
Marcados
Claudia Andujar
156 páginas - R$ 79,00 (em média)
Editora Cosac & Naify

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Pelas letras, um econtro com a magnitude de Oiticica

Hélio Oiticica é reconhecido internacionalmente como um artista plástico de primeira grandeza. A sua obra e seu pensamento continuam influenciando o melhor de nossa produção cultural.

O presente livro, volume da Coleção Encontros dedicado a Hélio Oiticica, ao reunir de forma inédita suas principais entrevistas e depoimentos, é um documento fundamental para a compreensão de sua trajetória e de nossa história recente.

Pela sua magnitude, por tão novo ter vindo ao mundo da arte e também tão novo ter deixado a Terra, Hélio se tornou um mito. E sobre os mitos, sabemos que muito se inventa. E ninguém melhor para desmitificá-lo do que ele mesmo. Assim, trazemos em suas palavras um pensamento rigoroso e desafiador, marca de Hélio Oiticica.

Hoje no Rio de Janeiro existe o Centro de Arte Hélio Oiticica, e na Galeria Tate Modern, em Londres, Hélio é o único artista em exposição permanente. Nos anos 1950 Hélio Oiticica estuda pintura com Ivan Serpa, inicia seus Metaesquemas e funda no final da década o grupo Neoconcreto, ao Lado de Lygia Clark, Ferreira Gullar e outros artistas. Faz parte do Grupo Nova Objetividade na primeira metade dos anos 1960, quando se descola da tela plana para encontrar do espaço, nos objetos e na performance seu campo investigação e invenção. Ainda nos anos 1960 se liga aos artistas que fariam a Tropicália, nome dado em função de uma obra deste artista. Realiza na Whitechapel Gallery em Londres, o projeto Éden. Em 1970 Recebe uma bolsa da Fundação Guggenheim e muda-se para Nova York, onde fica até 1978. Morre em 1980 no Rio de Janeiro.

Serviço
Encontros Hélio Oiticica
Organização: César Oiticica Filho, Sergio Cohn e Ingrid Vieira
280 páginas - R$ 29,90 (em média)
Editora Azougue

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ecos da Dor - Entrevista com David Grossman - sobre o livro "A mulher foge"


O escritor israelense David Grossman estava habituado com as constantes colaborações de seu filho Uri, de 20 anos, no romance que escrevia fazia três anos. Era um livro sobre a cruel realidade vivida por israelenses e palestinos, divididos por ambições similares, mas de impossível convivência conjunta.

“Uri servia o Exército e, nos seus momentos de folga, sempre me perguntava sobre o destino dos personagens”, conta Grossman que, no dia 12 de agosto de 2006, descobriu como a violência externa e a crueldade da realidade geral política e militar penetram no delicado e vulnerável tecido de uma família e acabam por despedaçá-la: Uri e outros três colegas foram mortos quando um míssil libanês atingiu seu tanque, durante uma “operação de resgate”.

Devastado emocionalmente, Grossman interrompeu a escrita até receber o amigo e também autor Amos Oz que, ao abraçá-lo, incentivou-o a retomar o trabalho: em tempos de desgraça, sussurrou Oz, a literatura é a salvação do escritor. Ainda sensibilizado, ele voltou à rotina e terminou “A Mulher Foge” (trad. de George Schlesinger, 656 págs., R$ 58), que a Cia. das Letras lança na próxima quinta-feira.

“Quando comecei a escrever, em 2003, tinha pressentimento (talvez desejo) de que esse livro pudesse proteger meu filho”, disse Grossman à Agência Estado, em entrevista por telefone.
A perda deixou vestígios em sua voz, agora serena e conformada, diferente do tom incisivo com que encantou os frequentadores da Festa Literária Internacional de Paraty, em 2005, época em que se destacava como um dos mais lúcidos intelectuais na defesa de uma solução pacífica para uma questão aparentemente sem resolução entre israelenses e palestinos.
Ao lançar “A Mulher Foge” no ano passado, em Israel, David Grossman evitou entrevistas e badalações - a dor pela perda do filho, Uri, continuava insuperável. O homem que já foi chamado de “a consciência moral de Israel” preferia o silêncio. Com o livro chegando a outros países, porém, Grossman retomou seu papel, participando de lançamentos. Afinal, “A Mulher Foge” imortaliza experiências de Uri, que contava ao pai histórias de sua rotina no exército.
O livro acompanha o percurso de dois homens, uma mulher e os dois filhos dela. Orah abandona a própria casa a fim de evitar a angustiante espera pela volta do filho que, militar, participa de uma importante operação. Ao viajar para a Galileia, ela reencontra Avram, namorado de infância. Juntos, perambulam a pé por Israel, enquanto ela, a fim de manter viva a memória do filho, conta a história de sua vida.

“Não se trata da história de uma perda, mas sobre a vida e suas diversas facetas, sobre a manutenção e também a reconstituição de uma família”, conta Grossman. Trata-se, na verdade, de uma tentativa de revelar a vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, da incansável resistência do povo israelense, cujos projetos de vida normalmente não têm grande extensão - enquanto outros países planejam o futuro com décadas de avanço, Israel (assim como seus vizinhos) preocupam-se basicamente em garantir a existência.

A literatura, portanto, desponta como um refúgio. É pela escrita, acredita ele, que o inimigo pode ser entendido por inteiro, com defeitos e também qualidades. O assunto foi tratado na seguinte entrevista.

Em quais aspectos esse livro é distinto dos anteriores?
Grossman - Não sei se consigo dizer. Talvez mais seja esse o romance mais compreensível que escrevi. Tentei combinar histórias familiares, algo muito pessoal, com uma conjuntura mais ampla, envolvendo uma guerra. Claro que busquei isso em outros livros, mas, nesse caso específico, ficou mais evidente que a realidade
exterior penetra de forma violenta na intimidade

Em alguns momentos, o livro transparece um pessimismo. Como quando Orah diz sobre Israel: “Sei que este país não tem chance alguma”. É um reflexo de seus sentimentos?
A maioria dos israelenses têm esse temor, que domina nossos desejos. O resultado é que o otimismo é sugado por esse receio, que também condiciona nossa condição sociopolítica. Somos um país pequeno, com seis milhões de habitantes, provavelmente um terço da população da cidade de São Paulo. E vivemos em um território violento, com poucas perspectivas de paz com nossos vizinhos. Ao mesmo tempo, Israel é um país de contradições, pois, apesar dessa situação, há uma vitalidade evidente, uma vibração intelectual, espiritual, cultural que contagia a cidade. Mesmo em meu livro, que trata de um perigo constante e iminente, há também a descrição da rotina vibrante dos habitantes, como a disposição de Orah em trazer Avram para a vida. Essa descombinação é constante.

Como a literatura se encaixa em uma sociedade oprimida pela guerra e pelo terror?
Em situações de guerra, é normal um certo encolhimento das pessoas, seja mental ou social. A prioridade é se proteger contra tudo. Com isso, o contato com a realidade é minimizado, uma consequência sofrida. Já a literatura aponta para outra direção: ao escrever, o autor se expõe. É possível fazer o que bem entende, até olhar a si mesmo sob o ponto de vista do inimigo. A ponto de, quando percebem que encerrei mais um livro, algumas pessoas perguntam se terminei a escrita fortalecido. Respondo que não é essa a minha intenção: prefiro terminar mais exposto. Não me preocupo em me proteger - de uma forma estranha, a escrita exerce uma função de sobrevivência para mim. Quanto mais me desnudo literariamente, mais acredito ter chance de me salvar, de encontrar alguma solução para os meus problemas.

Sua experiência no exército foi útil na escrita dessa história?
Realmente, passei quatro anos no exército, mas a maioria dos israelenses faz isso. Acredito que me ajudou a entender a realidade: de jovem protegido pela família, transformei-me em um soldado envolvido pela catástrofe da guerra, que torna qualquer ser humano vulnerável. Aproveitei ainda as histórias vividas por meus dois filhos, que também serviram o exército e me auxiliaram a dar uma veracidade à trama

Certa vez, você disse que tudo o que escreve é autobiográfico. Um de seus filhos, Uri, foi morto durante a guerra, em 2006, quando você escrevia esse romance. Assim, seria esse livro de alguma forma autobiográfico?
De fato, tudo que escrevo carrega um pouco da minha existência. Comecei a rascunhar ‘A Mulher Foge’ três anos e três meses antes de Uri ser morto no Líbano. Fiquei desnorteado e me perdi no medo que domina a sociedade israelense . Quando iniciei a escrita, ele ainda não estava no exército e minha expectativa era de estar ao seu lado, descrevendo a realidade que o cercava. Depois de sua morte, percebi que deveria continuar com o trabalho pois essa é a forma de justificar minha existência, de encarar meu destino.

Serviço
A mulher foge
David Grossman
Tradução: George Schlesinger
656 páginas - R$ 58,00 (em méida)
Editora Companhia das Letras

OBS: Entrevista difundida pela Agência Estado