sexta-feira, 31 de julho de 2009

Homero e Virgílio em nova edição


Homero conduziu homens, deuses, semi-deuses e herois pelos caminhos de Tróia. Vírgilo não só conduziu Dante pelos caminhos de sua Divina, mas também trilhou estradas homéricas. Separados pelo tempo mas juntos pela arte da literatura, ambos, trilharam os caminhos do campo literário Ocidental e construiram uma obra única que permanece á qualquer destruição.

A Ilíada de Homero é o mais antigo texto escrito nos limites do Sol-Poente que chegou até nós e, decorridos vinte e nove séculos, continua mais fresco que o jornal que vai sair amanhã. Registrados no então recém-criado alfabeto grego, no oitavo século antes de Cristo, numa Grécia ainda arcaica, porém remontando a uma tradição oral que extrapolava ao infinito este limite e este tempo, os dezesseis mil versos da Ilíada, nas palavras de Haroldo de Campos, nunca decaem, oscilam entre o Pico das Agulhas Negras e o Everest.

A Ilíada traduzida por Odorico Mendes, que a Ateliê editorial, coloca agora no mercado, sempre representará um tesouro a quem a possua, em que pese as dificuldades apresentadas pelo texto. Restringir essas dificuldades aos últimos limites de nossa competência, entregando o leitor às delícias do poema.

As Bucólicas de Virgílio, com sua densa musicalidade e seus pastores-poetas que, em meio à paisagem amena do campo, celebram seus amores e disputam entre si a primazia no canto, são recriadas em português por Manuel Odorico Mendes, um dos mais hábeis e interessantes tradutores de poesia que o Brasil já teve. Esta edição – bilíngüe e ricamente anotada e comentada pelo Grupo de Trabalho Odorico Mendes, sediado no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp –, além do esclarecimento do vocabulário e da sintaxe, traz para cada poema um comentário minucioso, em que se apontam, para o leitor que deseja penetrar nesse laboratório brilhante de recriação poética, os modos vários como Odorico Mendes recria em português os sons, ritmos, efeitos de sintaxe e a ordem expressiva das palavras do original latino.

Nos 150 anos de sua primeira publicação no livro Virgílio Brasileiro, a Ateliê Editorial e a Editora da Unicamp, com apoio da Fapesp, reeditam esta obra do grande poeta latino em uma de suas traduções mais bem cuidadas e instigantes.

Serviço
Coleção Clássicos Comentados
Bucólicas - Autor: Virgílio
Tradução: Odorico Mendes
208 pág - R$ 60,00
Editora: Ateliê Editorial

Coleção Clássicos Comentados
Ilíada - Autor: Homero
Tradução: Odorico Mendes
912 pág - R$ 88,00
Editora: Ateliê Editorial

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Shakespeare por Bandeira


Traduzir é um exercicio poético de recriar. Não é apenas converter caracteres para determinado tipo de compreensão mas sim, esmiuçar os sentimentos de cada palavra e transferir, de outra forma, estes sentimentos em uma nova configuração frasal. Traduzir é na verdade um exercicio de pintura, pois pouco importam as letras, o que resta ao final de cada tradução é a imgem que permeia todo o texto.

Esta edição de Macabeth merecere destaque por promover o encontro de três grandes poetas: Bandeira, Shakespeare e Auden. Mestre da prosa e da poesia, Manuel Bandeira também foi um exímio tradutor, especialmente de peças de teatro, tanto de autores modernos (como O círculo de giz caucasiano de Brecht) como clássicos (Maria Stuart de Schiller). Além de Bandeira, esta nova edição traz outro intérprete de Shakespeare no Brasil, o diretor Antunes Filho, com imagens de sua montagem de Macbeth reunidas na seleção iconográfica.

Neste lançamento da coleção Dramática, volta a circular a primorosa tradução de Bandeira daquela que é, em suas próprias palavras, “a mais sinistra e sanguinária tragédia do autor”. Incorporadas às suas obras completas desde os anos 50, as traduções de teatro feitas pelo autor de Libertinagem guardam o refinamento que marca sua produção poética.

O trama que tece Shakespeare nesta peça é imensamente conhecida e justifica não tecer aqui linhas a guisa de sinópse. Que conheçamos agora o Macbeth pelas linhas indiretas de Bandeira

Serviço
Macabeth
William Shakespeare
Tradução: Manuel Bandeira
208 páginas - R$ 49,00 (em média)
Editora Cosac & Naify

Palavras de Buenos Aires


Não há como ter certeza da verdade, esta é uma mentira tão interessante que julgamos ser possível. Assim são as narrativas de ABC, Adolfo Bioy Casares.

O livro reúne catorze contos do escritor argentino, publicados entre 1948 e 1969. Essas Histórias Fantásticas são permeadas de um fascínio pela cultura antiga e também por uma perplexidade diante da ciência e do comportamento moderno. Há mistérios que são tramados ao redor de referências a lendas celtas e deuses pagãos, enquanto outros contos incluem seres alienígenas e tecnologias sinistras, capazes, por exemplo, de absorver e perpetuar a alma de um ser vivo. Essas investigações e exercícios de fantasia são marcados por uma erudição que envolve o leitor, sem nunca escorregar para o exibicionismo.

Destas histórias embora marcadas, não podemos situá-las em um tempo exato. No mesmo instante que são do 'presente' elas pertencem a um remoto tempo no qual não sabemos definir como sendo o anterior ou aquele que esta por vir. Sabemos apenas que estamos em Buenos Aires e que este substantivo é quase um arquetipo. De Bioy acompanhamos uma narrativa lúcida e inteligente, não tão intelectual como a borgiana, mas culta a ponto de impedir constentações.

A presente edição conta com uma pesquisa iconográfica que enriquece a leitura permeando imagens selecionadas no Arquivo Nacional da Argentina e de álbuns da família de Bioy com aqueles que o escritor faz questão de construir através de uma complicada união de simbolos.

O apêndice do livro traz ainda comentários sobre o autor e um resumo do enredo de cada conto, bem como esclarecimentos pontuais sobre referências culturais e intertextualidade. Há também uma lista das adaptações cinematográficas dos contos e uma boa bibliografia de Bioy.

Serviço

Histórias Fantásticas
Adolfo Bioy Casares
Tradução: José Geraldo Couto
304 páginas - 7 ilustrações - R$ 49,00 (em média)
Editora: Cosac & Naify