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Como a syngué sabour da mitologia persa, a pedra negra que recebe dos peregrinos suas dores e lamentos, o homem prostrado ouve sua esposa. Ouve a extraordinária confissão da mulher, que segreda-lhe, de maneira inimaginável num país islâmico, tudo o que mantivera para si, soterrado sob uma espessa camada de tradição.A ideia para a obra surgiu a partir de um episódio em que foi convidado para um evento literário em Cabul por uma amiga, a poeta Nadia Anjuman.
Chegando lá, descobriu que a poeta estava morta, por “causas familiares”. Investigando, soube que Nadia havia sido espancada até a morte pelo próprio marido, com a conivência da mãe, pois eles discordavam de seu modo de vida.A frase que abre o livro — “Em algum lugar do Afeganistão ou alhures” — já revela a proposta do autor de não particularizar sua obra no âmbito topográfico: é sobre cultura afegã, ou, mais precisamente, sobre a ortodoxia islâmica que o autor se debruça em Syngué sabour.
Não por acaso anônimos, seus personagens fazem irromper as tensões de todo um povo, as mazelas de uma região ressentida de conflitos perenes, sem, no entanto, que se abdique da sutileza e do refinamento do detalhe.Estilista da linguagem, cuja economia maneja com precisão, Rahimi conduz o leitor entre o lirismo e a contundência, entre o que é velado e o que se escancara, através dos conflitos políticos, religiosos e morais de um país em escombros.
Esta obra, a primeira que ele escreveu diretamente em francês, conquistou o Prêmio Goncourt de 2008 e consolida o autor afegão como um dos grandes nomes da literatura trans-étnica deste início de século XXI. O júri que atribui o Goncourt para Syngué sabour era composto por: Tahar Ben Jelloun, Françoise Chandernargor, Edmonde Charles-Roux, Didier Decoin, Françoise Mallet-Joris, Bernard Pivot, Patrick Rambaud, Robert Sabatier, Jorge Semprun e Michel Tournier.No dia seguinte a seu comunicado de agradecimento pelo prêmio, Rahimi emitiu outro contra a deportação de 50 compatriotas afegãos que seriam embarcados à força de Calais (França), no que teve sucesso, imbuído de nova autoridade como laureado do Goncourt.
Serviço
Pedra-de-paciência
Rahimi Atiq
Tradução: Flávia Nascimento
152 páginas - R$ 30 (em média)
Editora Estação Liberdade
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