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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Operação massacre - Rodolfo Walsh


'Operação Massacre' narra os bastidores da ação policial que resultou no fuzilamento clandestino de doze civis acusados de conspirar contra o governo ditatorial que depusera Perón um ano antes. Reunidos em uma casa na região metropolitana de Buenos Aires para acompanhar a transmissão de uma luta de boxe pelo rádio, doze homens são presos e levados para a delegacia na noite de 9 de junho de 1956, onde permanecem sem acusação formal ou julgamento até a manhã seguinte, quando enfim são conduzidos a um lixão nos limites da cidade e condenados sumariamente ao fuzilamento. Eram suspeitos de participar da tentativa de golpe de Estado que os generais peronistas Tanco e Valle haviam incitado naquela mesma noite. A repressão ao golpe empregou julgamentos sumários, fuzilamentos e prisões clandestinas, mostrando o caráter violento do governo provisório que, um ano antes, havia deposto Juán Domingo Perón com a promessa de pacificar e devolver a liberdade ao país. Para reconstituir o percurso dos prisioneiros na noite do fuzilamento, o autor valeu-se de diálogos, contraposição de pontos de vista e outros recursos emprestados da ficção, conferindo à narrativa um ritmo de romance policial.

Serviço
Operação massacre
Rodolfo Walsh
Tradução: Hugo Mader
288 páginas - R$ 46,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

domingo, 19 de setembro de 2010

A valsa dos adeuses - Milan Kundera


Em um pequeno balneário decadente, oito personagens se ligam de maneiras improváveis. Esterilidade, amor não correspondido, adultério, depressão, aborto - Kundera reúne neste romance elementos que podem perturbar o amor. Pares se encontram e desencontram como se rodopiassem ao som de uma valsa. A música dá partida para o tema inicial do livro - a gravidez indesejada de uma jovem em contrapartida ao desejo de ser mãe que leva as mulheres até a estação de águas. Aos poucos, Milan Kundera apresenta a outros pares, a outros temas. E, através desses personagens, o autor levanta questões como a ética dos processos de fertilização, a traição entre amigos, os limites da paixão, as armadilhas do ciúme, o despertar do erotismo, a necessidade de tomar as rédeas da própria vida ou morte.

Serviço
A valsa dos adeuses
Milan Kundera
Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca
248 páginas - R$ 24,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

As palavras de Saramago - José Saramago


Único escritor de língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel, José Saramago (1922-2010) é um exemplo perfeito do intelectual engajado preconizado pelo autor de As palavras, Jean-Paul Sartre. Com efeito, a intervenção na esfera pública, o comprometimento com uma visão crítica do mundo, a defesa de ideias muitas vezes polêmicas, a indignação diante das injustiças e desigualdades econômicas e sociais são características marcantes de alguém que jamais separou o escritor do cidadão e sempre disse com todas as palavras o que pensava.

Este livro, editado por Fernando Gómez Aguillera, biógrafo espanhol de Saramago, traz uma ampla seleção de declarações do escritor extraídas de jornais, revistas e livros de entrevistas, publicados em Portugal, no Brasil, na Espanha e em diversos outros países, da segunda metade da década de 1970 até março de 2009.

Os textos estão organizados cronologicamente no interior de núcleos temáticos que abrangem as questões mais recorrentes nas manifestações do escritor. A primeira parte, centrada na pessoa José de Sousa Saramago, reúne comentários sobre sua infância, a formação autodidata, a trajetória pessoal, os lugares onde morou, bem como reflexões sobre si mesmo - o pessimismo, a indignação, a coerência, a primazia da ética - que traçam o perfil de um escritor sempre disposto a praticar a introspecção e a compartilhar seu pensamento com a opinião pública.

A segunda parte, em que vem para o primeiro plano a figura do escritor, traz reflexões sobre o ofício literário que mostram sua plena consciência dos procedimentos romanescos, concepções pouco ortodoxas para um comunista sobre as relações entre literatura e política - “não vou utilizar a literatura para fazer política” - e o papel do escritor na sociedade: “se o escritor tem algum papel, é intranquilizar”.

Na terceira parte, quem fala é o cidadão José de Sousa Saramago, o crítico, entre outras coisas, da globalização econômica, do “concubinato” dos meios de comunicação com o poder, do consumismo, do comunismo soviético, da paralisia da esquerda incapaz de inovar, do conservadorismo da Igreja católica, da postura de Israel em relação aos palestinos e do irracionalismo generalizado do mundo capitalista. Sua voz clama pela democracia social plena - não apenas formal e eleitoral -, pelo respeito integral aos direitos humanos e pelo sagrado direito de espernear: “Ao poder, a primeira coisa que se diz é não”.

As palavras de Saramago compõe o retrato falado de um escritor que exerceu seu ofício com o profissionalismo de um operário, a pertinácia de um militante político, a consciência de um cidadão e a visão ampla de um verdadeiro intelectual.

Serviço
As palavras de Saramago
José Saramago
480 páginas - R$ 53,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O Brasil holandês - Evaldo Cabral de Mello


A presença do conde Maurício de Nassau no Nordeste brasileiro, no início do século XVII, transformou Recife na cidade mais desenvolvida do Brasil. Em poucos anos, o que era um pequeno povoado de pescadores virou um centro cosmopolita. A história do governo holandês no Nordeste brasileiro se confunde com a guerra entre Holanda e Espanha. Em 1580, quando os espanhóis incorporaram Portugal, lusitanos e holandeses já tinham uma longa história de relações comerciais. O Brasil era, então, o elo mais frágil do império castelhano, e prometia lucros fabulosos provenientes do açúcar e do pau-brasil. Este volume reúne as passagens mais importantes dos documentos da época, desde as primeiras invasões na Bahia e Pernambuco até sua derrota e expulsão. Os textos - apresentados e contextualizados pela maior autoridade no período holandês no Brasil, o historiador Evaldo Cabral de Mello - foram escritos por viajantes, governantes e estudiosos. São depoimentos de quem participou ou assistiu aos fatos, e cuja vividez e precisão remete o leitor ao centro da história.

Serviço
O Brasil holandês
Evaldo Cabral de Mello
512 páginas - R$ 28,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

Luka e o fogo da vida - Salman Rushdie


Embora possa ser lido de forma independente, Luka e o Fogo da Vida retoma os protagonistas de Haroun e o Mar de Histórias, romance de Salman Rushdie publicado em 1990: Rashid Khalifa, famoso contador de histórias, cuja imaginação prodigiosa o faz viver entre o mundo real e o mundo da fantasia; Soraya, sua mulher; e os dois filhos, Haroun e Luka. Neste novo livro, Luka tem doze anos e sonha em seguir os passos do pai e do irmão mais velho, que já se aventuraram pelo mundo da magia. É então que, sem querer, ele roga uma maldição contra um circo que visita a cidade, cujos animais são maltratados pelo dono, o Capitão Aag. Naquela noite, o circo é destruído por um incêndio.

Mas o Capitão Aag se vinga, enfeitiçando o pai de Luka e fazendo-o cair num sono profundo, que acabará por matá-lo se o feitiço não for quebrado. Luka então descobre que o único jeito de salvar o pai é roubando o Fogo da Vida do topo da Montanha do Conhecimento. Ao longo da odisseia de Luka, uma impressionante variedade de mitologias se sucede. Além de ser populado por deuses gregos, romanos, astecas, hindus e nórdicos, o livro também faz alusão ao que se poderia chamar de universo mitológico moderno, como os filmes de Walt Disney, a trilogia De volta para o futuro e o romance Um ianque na corte do rei Artur, de Mark Twain.

Escrito num ritmo ágil e com um humor evidente nos jogos de linguagem que temperam a narrativa, Luka e o Fogo da Vida é uma declaração de amor à fantasia, ao mesmo tempo em que chama atenção para as ligações entre imaginação e realidade.

Serviço
Luka e o fogo da vida
Salman Rushdie
Tradução: José Rubens Siqueira
208 páginas - R$ 33,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Essencial - Joaquim Nabuco


Joaquim Nabuco (1849-1910) foi um dos primeiros pensadores brasileiros a ver na escravidão o grande alicerce da nossa sociedade. Sendo ele um intelectual nascido e criado no ambiente da aristocracia escravista, a liderança pela campanha da Abolição não só causa espanto por sua coragem e lucidez como faz de Nabuco um dos maiores homens públicos que o país já teve.

A defesa da monarquia federativa, a campanha abolicionista, a atuação diplomática, a erudição e o espírito grandioso do autor pernambucano são apresentados aqui em textos do próprio Nabuco, na seleção criteriosa e esclarecedora feita pelo historiador Evaldo Cabral de Mello, também responsável pelo texto de introdução.

Selecionados de suas obras mais relevantes, como O Abolicionismo (1883), Um estadista do Império (1897), Minha formação (1900), entre outras, os textos permitem acompanhar não apenas a trajetória de Nabuco, a evolução de seu pensamento e de suas atitudes apaixonadas, mas sobretudo o tempo histórico brasileiro em algumas de suas décadas mais decisivas.

Serviço
Essencial
Joaquim Nabuco
Organização: Evaldo Cabral de Mello
632 páginas - R$ 32,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

O pavilhão dourado - Yukio Mischima


Durante a Segunda Guerra, em Quioto, um jovem assistente de sacerdote frequenta o templo do Pavilhão Dourado, ambiente antes cultuado por seu pai como o lugar mais belo do mundo. Ali, Mizoguchi, adolescente inseguro, introspectivo, que sofre de gagueira e é incapaz de estabelecer verdadeiras amizades, encontra refúgio para suas aflições. Quando conhece Kashiwagi, deficiente físico muito mais experiente no mundo e no sexo, Mizoguchi desperta para o que chama de mal absoluto. O conhecimento do mal, associado à ideia de perfeita beleza, princípio básico do Pavilhão Dourado, faz com que o jovem alimente sonhos de destruição e autodestruição, estranhas conjecturas sexuais e reflexões sobre o significado dos valores universais, numa tortura mental que revela que o mal e a beleza não estão tão distantes quanto.

Serviço
O pavilhão dourado
Yukio Mischima
Tradução: Shintaro Hayashi
288 páginas- R$ 48,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vultos da República - os melhores perfis políticos da Revista Piauí - Humberto Werneck


Fernando Henrique Cardoso prefere mala de cor berrante e não guarda canhoto de cartão de crédito. José Dirceu fica "louco sem um hidratante", não passa em frente a um espelho sem conferir o visual e tem em casa um quadro pintado por José Sarney. Dilma Rousseff confessa uma única tristeza na vida, a de não ser pintora. José Serra já foi "o galã das meninas" e nunca se sentiu tão bem quanto no palco, como ator. E Marina Silva só escreve com lapiseira e em letra de forma.

Detalhes sem importância? Nem tanto, quando se trata de compor um bom perfil jornalístico - gênero em que a revista piauí vem se esmerando desde o primeiro número, de outubro de 2006. Numa era de minimalismo editorial, a piauí tomou uma bem-vinda contramão, dedicando largo tempo e espaço à elaboração de perfis caprichados, que já renderiam algumas coletâneas. A primeira delas fecha o foco em personagens da cena política brasileira. Não só os que já disputaram votos - Serra, Marina, Dilma, FHC e José Dirceu - como outros influentes "vultos da República", para usar a rubrica não isenta de ironia que a revista cunhou para uns e outros: o ex-ministro Márcio Thomas Bastos; Sérgio Rosa, presidente do Previ, o maior fundo de pensão da América Latina; e, exceção entre poderosos, o caseiro Francenildo dos Santos, que involuntariamente embaralhou a sucessão do presidente Lula.

Escritos por quatro dos melhores jornalistas brasileiros da atualidade - Consuelo Dieguez, Daniela Pinheiro, João Moreira Salles e Luiz Maklouf Carvalho -, os perfis reunidos neste livro certamente ajudam a iluminar o cenário político brasileiro. Mais do que isso: por sua alta qualidade, são textos sem data de validade, capazes de sobreviver à circunstância e continuar sendo, muito além de outubro próximo, uma leitura fascinante.

Serviço
Vultos da República - os melhores perfis políticos da Revista Piauí
Humberto Werneck
304 páginas - R$ 49,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

O único final feliz para uma história de amor é um acidente - João Paulo Cuenca


Este romance de J. P. Cuenca se passa em um futuro próximo na cidade de Tóquio e é centrado na figura de Shunsuke Okuda, um jovem funcionário de uma multinacional. Conquistador inveterado, ele cria uma identidade para cada namorada que conhece nos bares do distrito de Kabukicho. Mas sua rotina é abalada pelo aparecimento de Iulana, uma garçonete por quem fica obcecado. Iulana é apaixonada por uma dançarina e mal fala japonês, mas nada disso impede que os dois mergulhem numa relação conturbada. O maior problema, contudo, é que estão sendo observados.

O pai de Shunsuke, sr. Okuda, paira sobre o livro como uma figura onipresente e maligna que parece querer destruir qualquer chance de felicidade do filho. Operando um complexo sistema de espionagem, Okuda grava os passos de Shunsuke, e poderá pôr em perigo a vida do casal. Com uma estrutura caleidoscópica e narradores tão surpreendentes quanto uma melindrosa boneca inflável, o romance se apropria da cultura japonesa de ontem e de hoje - dos quadrinhos, dos seriados -, para narrar uma história de amor surpreendente e perturbadora, em que a vida fragmentada das metrópoles, o voyeurismo e a perversão figuram como vilões onipresentes.

Serviço
O único final feliz para uma história de amor é um acidente
João Paulo Cuenca
150 páginas - R$ 36,50 (em média)
Editora Companhia das Letras

O sul mais distante - Gerald Horne


Em meados do século XIX, os Estados Unidos da América e o Império do Brasil estavam profundamente atados pelo envolvimento com a escravidão negra e o tráfico transatlântico de escravos. Então os maiores produtores mundiais de algodão e de café, os senhores de escravos de ambas as nações enfrentavam a hostilidade crescente dos militantes abolicionistas da Grã-Bretanha e das unidades federativas do Norte dos Estados Unidos. Baseado em uma vasta pesquisa realizada em arquivos de diversos países, Gerald Horne explora as percepções que os ideólogos da escravidão no Sul dos Estados Unidos tinham do Brasil (o “Sul mais distante”), os projetos que delinearam a partir delas, seu papel nas polêmicas seccionais que conduziram, em 1861, à eclosão da Guerra Civil e o impacto do conflito norte-americano sobre os destinos da escravidão brasileira.

A partir do exame dos planos para a ocupação da Amazônia com o emprego de mão de obra negra e de capitais sulistas, a reabertura do tráfico transatlântico negreiro após sua proibição definitiva em 1850 e o estabelecimento de uma aliança internacional pró-escravista entre os Estados do Sul e o Império do Brasil, o autor oferece um livro profundamente original e perturbador, que muito ilumina as trajetórias históricas dos dois países.

Serviço
O sul mais distante
Gerald Horne
Tradução: Berilo Vargas
488 páginas - R$ 57,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O castelo nos Pirineus - Jostein Gaarder


Por cinco anos intensos na década de 1970, Steinn e Solrunn foram felizes. Então tomaram rumos diversos, por razões desconhecidas a ambos. No verão de 2007, depois de trinta anos distantes, eles se encontram por acaso no terraço de um velho hotel de madeira às margens de um fiorde no oeste da Noruega, um lugar intimamente relacionado à separação no passado. Mas terá sido esse encontro, em lugar tão significativo, um mero acaso? Buscando respostas a essa pergunta, e para entender como um relacionamento que prometia ser duradouro pôde acabar subitamente, o ex-casal começa uma frenética troca de e-mails.

Na linguagem dessas missivas apressadas que inundam a vida cotidiana, os dois esboçam visões de mundo antagônicas e explicações contraditórias para o fim do romance. De um lado, o climatologista Steinn apenas crê no que pode ser provado pela ciência e pela razão. De outro, Solrunn, uma mulher religiosa, acredita na transcendência, em um espírito além do corpo e de nossa existência terrena. Disso resulta que as experiências compartilhadas pelos dois no hotel no litoral (a de trinta antes e a do verão corrente) serão entendidas de modo muito distinto por cada um. Apesar de se respeitarem, eles não podem concordar com a concepção do outro - até que suas certezas sejam postas à prova.

Serviço
O castelo nos Pirineus
Jostein Gaarder
Tradução: Luiz Antônio de Araújo
180 páginas - R$ 34,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Fogo Amigo - A. B. Yehoshua


A virtuosidade da arte narrativa de A. B. Yehoshua já é bem conhecida no Brasil. Os quatro romances de sua autoria publicados no país pela Companhia das Letras ilustram a maestria de sua vasta produção ficcional, completada por contos e peças teatrais e acompanhada por uma engajada produção ensaística. Em Fogo amigo, seu mais recente livro, a narrativa é pontuada pelo acendimento gradual das velas do candelabro festivo do Hanukah, e acompanha sete dias decisivos na vida de um casal israelense de meia-idade.

Yaari, o protagonista, está às voltas com os cuidados exigidos pela doença do pai e as visitas devidas aos filhos e netos, enquanto os uivos lancinantes emitidos pelo poço de elevadores de um edifício ultramoderno recém-construído em Tel Aviv desafiam sua reputação de bem-sucedido engenheiro projetista. Sua esposa Daniela, professora do ensino secundário, aproveita o feriado escolar para viajar até um lugarejo perdido nas savanas da Tanzânia, procurando no silêncio de Yirmiyahu, ex-cunhado decidido a cortar todos os vínculos com Israel, os traços fugidios da presença da irmã morta.

Ecoando os guinchos do elevador semiclandestino instalado por seu pai num velho apartamento em Jerusalém, assim como os lamentos das numerosas famílias israelenses dilaceradas pela violência da guerra, os misteriosos ruídos que perturbam a frágil tranquilidade do feriado de Yaari sinalizam a magistral alegorização dos cenários do livro. Nas desoladas paisagens africanas, a ancestralidade arqueológica da espécie humana convive com as sombras do passado da pequena família israelense, perturbada pela morte de um de seus membros pelo "fogo amigo" das forças de ocupação na fronteira da Cisjordânia. Os acontecimentos soterrados na memória de Yaari e Daniela afloram de maneira inusitada, formando uma totalidade apenas resolvida, como numa delicada composição em contraponto, com o esperado reencontro das vozes amorosas do casal.

Serviço
Fogo Amigo
A. B. Yehoshua
Tradução: Davy Bogomoletz
384 páginas - R$ 54,50 (em média)
Editora Companhia das Letras

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As avós - Doris Lessing


Roz e Lil são amigas inseparáveis desde a infância. Cresceram, casaram, tiveram filhos, e vivem na paradisíaca bacia de Baxter, um lugar cercado de rochas por todos os lados. O ambiente protegido, “bocejante”, além do qual o “verdadeiro oceano rugia e roncava”, é o cenário ideal para uma relação cada vez mais simbiótica.

Morando em casas vizinhas, elas criam os filhos por conta própria — e eles se tornam adolescentes encantadores.Tão encantadores e próximos, que Roz e Lil não tardam a se envolver uma com o filho da outra. Num efeito ambíguo e desconcertante, típico da grande literatura, o que poderia parecer repulsivo é tratado com naturalidade e bom-humor, fazendo a quebra de tabus soar como regra, e não como dramática exceção. Temas como a amizade, maternidade e sexualidade ganham novos contornos enquanto Doris Lessing esmiúça as complexidades e armadilhas da forte ligação entre essas duas mulheres, e retrata a força com que elas confrontam as convenções familiares e sociais de sua época.

Serviço
As avós
Doris Lessing
Tradução: Beth Vieira
104 páginas - R$ 31,50 (em média)
Editora Companhia das Letras

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Coleção de areia - Italo Calvino


'Coleção de areia' é uma deriva contínua por temas e formas que sempre obcecaram o autor. Em textos breves a atenção de Calvino se volta para o que está na periferia do olhar - a exposição aparentemente anódina, o fato bizarro, a galeria de monstruosidades, o efêmero.

Serviço
Coleção de areia
Italo Calvino
232 páginas - R$ 39,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Vultos da República - Humberto Werneck


Fernando Henrique Cardoso prefere mala de cor berrante e não guarda canhoto de cartão de crédito. José Dirceu fica “louco sem um hidratante”, não passa em frente a um espelho sem conferir o visual e tem em casa um quadro pintado por José Sarney. Dilma Rousseff confessa uma única tristeza na vida, a de não ser pintora. José Serra já foi “o galã das meninas” e nunca se sentiu tão bem quanto no palco, como ator. E Marina Silva só escreve com lapiseira e em letra de forma. Detalhes sem importância? Nem tanto, quando se trata de compor um bom perfil jornalístico — gênero em que a revista piauí vem se esmerando desde o primeiro número, de outubro de 2006. Numa era de minimalismo editorial, a piauí tomou uma bem-vinda contramão, dedicando largo tempo e espaço à elaboração de perfis caprichados, que já renderiam algumas coletâneas.

A primeira delas, não fosse este um ano de eleição presidencial, fecha o foco em personagens da cena política brasileira. Não só os que disputam ou já disputaram votos — Serra, Marina, Dilma, Fhc e José Dirceu — como outros influentes “vultos da República”, para usar a rubrica não isenta de ironia que a revista cunhou para uns e outros: o ex-ministro Márcio Thomas Bastos; Sérgio Rosa, presidente do Previ, o maior fundo de pensão da América Latina; e, exceção entre poderosos, o caseiro Francenildo dos Santos, que involuntariamente embaralhou a sucessão do presidente Lula.

Escritos por quatro dos melhores jornalistas brasileiros da atualidade — Consuelo Dieguez, Daniela Pinheiro, João Moreira Salles e Luiz Maklouf Carvalho —, os perfis reunidos neste livro certamente ajudam a iluminar as alternativas eleitorais de 2010. Mais do que isso: por sua alta qualidade, são textos sem data de validade, capazes de sobreviver à circunstância e continuar sendo, muito além de outubro próximo, uma leitura fascinante.

Serviço:
Vultos da República
Humberto Werneck
296 páginas - R$ 49,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Atravessar o fogo - Lou Reed


Atravessar o fogo reúne as mais de trezentas letras compostas por Lou Reed ao longo de seus quarenta e cinco anos de carreira. Um panorama abrangente da obra de um dos grandes poetas da música popular norte-americana contemporânea.

Serviço:
Atravessar o fogo
Lou Reed
Tradução: Christian Schwartz
794 páginas - R$ 51,50 (em média)
Editora Companhia das Letras

terça-feira, 27 de julho de 2010

Uma casa para o Sr. Biswas - V.S. Naipaul


Uma Casa para o Sr. Biswas é inspirado na infância e adolescência do autor, e a maior ambição de seu protagonista é ter sua própria casa. A história desse personagem irremediavelmente deslocado é recheada de divertidas peripécias, sempre girando em torno da eterna busca de um lar e de uma ocupação satisfatória. Em suas aventuras, está sempre às voltas com parentes, vizinhos e amigos intrometidos, que ora o atrapalham ora o ajudam em sua cruzada.

Serviço:
Uma casa para o Sr. Biswas
V.S. Naipaul
Tradução: Paulo Henriques Britto
664 páginas - R$ 36,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Diplomacia suja - Craig Murray


Quando chegou ao Uzbequistão, Craig Murray era um diplomata em ascensão, e assumia um posto estratégico. A missão do embaixador era clara: fortalecer as relações comerciais entre aquela ex-república soviética e a Grã-Bretanha e, se possível, dar uma mãozinha aos americanos na Guerra contra o Terror.

Deparou-se, contudo, com espinhosas surpresas. Após presenciar um julgamento fraudulento de dissidentes, Murray recebe fotos estarrecedoras, nas quais um opositor do regime aparece, literalmente, fervido até a morte. Ao retransmitir a informação pelos canais do serviço britânico, a resposta foi ainda mais escandalosa, e a mensagem, apesar de encoberta pelo jargão político, era clara: o governo uzbeque é nosso aliado na guerra contra o terror, não interfira.

Apreciador de um bom copo (ou três) e mulherengo contumaz, Murray era pouco afeito ao empolado código de conduta diplomático, e estava longe de ser um modelo de comportamento. No entanto, logo se viu no papel de herói involuntário e foi a público revelar fatos constrangedores que seus colegas e chefes teimavam em ignorar.

Em meio a perseguição política e muita diplomacia suja, Murray fala também de sua conturbada vida pessoal e da paixão por uma stripper de Tashkent, improvável aliada deste ativista acidental que jogou fora uma carreira brilhante para dedicar-se a uma causa que ninguém ousara defender.

Serviço:
Diplomacia suja
Craig Murray
Tradução: Berillo Vargas
472 páginas - R$ 58,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O pavilhão dourado - Yukio Mishima


Durante a Segunda Guerra, em Quioto, um jovem assistente de sacerdote frequenta o templo do Pavilhão Dourado, ambiente antes cultuado por seu pai como o lugar mais belo do mundo. Ali, Mizoguchi, adolescente inseguro, introspectivo, que sofre de gagueira e é incapaz de estabelecer verdadeiras amizades, encontra refúgio para suas aflições.

Quando conhece Kashiwagi, deficiente físico muito mais experiente no mundo e no sexo, Mizoguchi desperta para o que chama de mal absoluto. O conhecimento do mal, associado à ideia de perfeita beleza, princípio básico do Pavilhão Dourado, faz com que o jovem alimente sonhos de destruição e autodestruição, estranhas conjecturas sexuais e reflexões sobre o significado dos valores universais, numa tortura mental que revela que o mal e a beleza não estão tão distantes quanto parecem.

Serviço:
O pavilhão dourado
Yukio Mishima
Tradução: Shintaro Hayashi
288 páginas - R$ 48,00 (em média)
Editora Companhia das Letras

terça-feira, 13 de julho de 2010

Henderson, o rei da chuva - Saul Bellow


Eugene Henderson é um homem complexo e em crise: riquíssimo, descendente de homens ilustres, criador de porcos, ex-combatente da Segunda Guerra ferido e condecorado. Na meia-idade, depois de dois casamentos e de um punhado de filhos, de incontáveis conflitos com parentes e vizinhos, de dores de dente crônicas, bebedeiras e ameaças de suicídio, ele decide romper com seu passado de erros e empreender uma virada existencial radical. Parte então para a África, em busca de uma humanidade mais “autêntica” e de um sentido para a vida.

Com seu extraordinário domínio da narração em primeira pessoa, Saul Bellow relata pela voz ao mesmo tempo exasperada e cômica do próprio Henderson os encontros e desencontros entre o racionalismo pragmático do personagem e uma África deliciosamente exótica, remota e insondável. Primeiro entre os Arnewi e depois entre os Wariri, povos contrastantes que só têm em comum uma dramática falta de água para a lavoura e o gado, Henderson tenta atabalhoadamente colocar sua energia e seu intelecto a serviço de seus novos amigos, com resultados não menos que desastrosos.

Publicado originalmente em 1958, Henderson, o rei da chuva, com seu protagonista inesquecível, é considerado um dos livros mais saborosos de Bellow. Com alguma licença, pode ser visto como uma variação irônica e bem-humorada, mas não menos humana, do confronto entre a civilização ocidental e a África selvagem descrito por Joseph Conrad em O coração das trevas.

Serviço:
Henderson, o rei da chuva
Saul Bellow
Tradução: José Geraldo Couto
416 páginas - R$ 58,00 (em média)
Editora Companhia das Letras