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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Os exércitos - Evelio Rosero


Segundo Tolstoi, é preciso ser local para ser universal: ao se aprofundar num local que já conhece, o escritor seria capaz de encontrar traços comuns à natureza humana. Foi esse o ponto de partida do consagrado escritor colombiano Evelio Rosero ao escrever Os exércitos, romance que tem por contexto a “guerra degradada” colombiana.

O enredo de Os exércitos é avassalador: um casal aposentado vive o cotidiano tranquilo de uma pequena vila interiorana, até que, repentinamente, tudo vai sendo submergido na “degradada” e degradante guerra colombiana. Na verdade, as coisas começam a mudar não por uma presença, mas por uma ausência: a de algumas pessoas, que desaparecem. Esta ausência é “compensada” pelo surgimento de homens armados, e acaba-se por destruir uma vida que parecia destinada a ser a conhecida, habitual e segura repetição cotidiana de si mesma.

Vencedor do Foreign Fiction Prize de obras traduzidas para o inglês, do jornal The Independent, Os exércitos entrou para o clube do qual fazem parte Orhan Pamuk, Milan Kundera e José Saramago. Traduzido inúmeras vezes, calou fundo na crítica internacional. Afinal, em tempos de guerras de “baixa intensidade” e alta disseminação, ameaças terroristas e crise ambiental global, cada cidade do mundo, em sua vida cotidiana e aparentemente segura, tem algo de uma pequena vila colombiana involuntariamente à espera de ser subitamente engolfada por forças incontroláveis, frente às quais as qualidades humanas serão a única esperança, se houver alguma.

Serviço:
Os exércitos
Evelio Rosero
Tradução: Maria Paula G. Ribeiro
192 páginas - R$ 29,90 (em média)
Editora Globo

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O compromisso - Herta Müller


Herta faz uma espécie de retorno ao passado e às experiências pessoais para mostrar o mundo terrível de adversidades e humilhações que ela mesma viveu na Romênia comunista, um país tomado pelas trevas de um regime repressor, numa sociedade onde a oportunidade é limitada, a delação se tornou uma instituição extra-oficial e a confiança no próximo é uma raridade escassa tanto quanto um prato de comida decente ou um belo sapato feminino. A autora descreve uma nação habitada por cidadãos que, em boa parte, recorrem ao álcool para suportar uma rotina burocratizada, onde nada de interessante parece acontecer.

Serviço:
O compromisso
Herta Müller
Tradução: Lya Luft
204 páginas - R$ 35,00 (em média)
Editora Globo

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Depressões - Herta Müller


Herta Müller nada tem de realista, muito menos de naturalista. Sua prosa é avara de indicações de tempo e espaço, incluindo as mais prosaicas (em mais de um sentido), como os nomes dos personagens. Não há nomes de personagens, de cidades (ou vilas, pois os contos têm ambientação rural), de ruas, de países, não há datas nem referências nominais a acontecimentos históricos. Tudo se passa em certo imediatismo constatativo, como na magistral descrição das muitas fotos do pai da narradora pregadas nas paredes da sala, em “O discurso fúnebre”. O resultado é um estranho híbrido em que tudo parece muito imediato e real e, ao mesmo tempo, inacessível e onírico: concreto e rarefeito. Desde que onírico não leve aqui a se pensar em sonhos agradáveis, ainda que não se trate de pesadelos particularmente opressivos. Uma certa banalidade da incompreensão de tudo, se se pode dizer assim.

Em termos estilísticos, o que mais impressiona em Herta Müller é a recusa à subordinação gramatical, e o uso, portanto, de frases paratáticas, ou “paralelas”, que simplesmente se seguem umas às outras, e não se articulam de fato. Não há conectivos e conjunções, mas uma sucessão de frases curtas e constatativas. Se, por um lado, isso dá ao texto uma grande modernidade (além de plasticidade), por outro materializa a impossibilidade de compreensão, de explicação, de razão. As coisas não têm motivos, ao menos, não motivos compreensíveis, têm apenas realidade. É como se Kafka houvesse se impregnado de Camus, cujo Estrangeiro começa com uma frase “mülleriana”: “Hoje mamãe morreu”. Herta Müller leva a incompreensibilidade psicológico-social de um e a incompreensibilidade existencial de outro aos seus limites máximos, e funde tudo no cadinho de seu agudo estilo “pós-metafísico”. Bem-vindos à sombria lucidez contemporânea.

Serviço
Depressões
Herta Müller
162 páginas - R$ 29,90 (em média)
Editora Globo

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Crônicas de Bustos Domecq e novos contos de Bustos Domecq - Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares


'Crônicas de Bustos Domecq - Novos contos de Bustos Domecq', da dupla Borges e Casares, têm como alvo a Argentina de acadêmicos a políticos, passando por alguns artistas, além de personagens internacionais do mesmo tipo. Abordando assim as questões do tempo, buscando acrescentar uma faceta de realismo e sátira, ao prisma multiforme de sua obra.

Serviço
Crônicas de Bustos Domecq e novos contos de Bustos Domecq
Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares
Tradução: Maria Paula Gurgel Ribeiro
253 páginas - R$ 42,00 (em média)
Editora Globo

terça-feira, 27 de abril de 2010

Fidel e Che uma amizade revolucionária - Simon Reid-Henry


Che, o introspectivo. Fidel, o expansivo. Che, o internacionalista. Fidel, o líder cubano. Che, o jovem idealista de cabelos longos que se sacrifica pelos oprimidos. Fidel, o caudilho de barbas grisalhas que após 50 anos ainda controla a ilha de Cuba pelas mãos do irmão Raúl.

A revolução cubana, que surpreendeu um mundo bipolar ao instaurar o socialismo no hemisfério ocidental, teve dois grandes líderes unidos pela ideologia e pela amizade e separados por suas escolhas. Enquanto Ernesto Che Guevara abdicava do poder estabelecido para aventurar-se na África e na América do Sul, Fidel Castro administrava um regime centralizado em seu país natal.

Sobre essas duas figuras fundamentais da história recente é que se debruça o autor Simon Reid-Henry em Fidel & Che – Uma amizade revolucionária, com pesquisas feitas em Havana, Washington, Moscou, Miami, Princenton, Boston e Berlim – além de entrevistas com testemunhas da época.

O livro mostra que, a partir de uma associação política, inicia-se um relacionamento de amizade e camaradagem que mudaria de fato suas vidas. Desde os encontros preparativos da expedição revolucionária no México até os últimos dias de Guevara, já cercado nas montanhas bolivianas sem esperança de fuga, enquanto Fidel vivia os dias mais duros da Guerra Fria em Havana, o autor percorre os caminhos políticos dos dois líderes, mas sem perder o foco no tema principal: o envolvimento pessoal.

A narrativa de Reid-Henry guarda o melhor estilo jornalístico rápido e direto, uma envolvente reportagem, que mantém o leitor cativado com um ritmo que retoma a tensão dos acontecimentos daquela época. Apesar de tratar de figuras públicas com proeminência internacional, a pesquisa mantém a perspectiva das nuances e contradições de um relacionamento afetivo.

Entre o mito, de Che, e o sempre equívoco destino humano, de Fidel, está a morte do primeiro a lhes separar. A realidade impõe limites à preservação de uma aura heróica, que só atingem os que morreram jovens. Ou aqueles que não se viram diante das escolhas e seduções do poder. Guevara abandonou Cuba uma vez concluído o processo revolucionário para morrer em combate na selva. Fidel administra há 50 anos um estado burocratizado.

A pesquisa qualificada e a argúcia narrativa de Simon Reid-Henry, no entanto, têm o dom de devolver ao leitor, para além da história oficial, a figura de dois homens. Homens que emergem com o frescor da vida, por detrás das efígies do velho líder autocrático e do semideus generoso.

Serviço
Fidel e Che uma amizade revolucionária
Simon Reid-Henry
Tradução: Beatriz Velloso
576 páginas - R$ 69,90 (em média)
Editora Globo

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Fidel e Che - Uma amizade Revolucionária - Dimon Reid-Henry


Che, o introspectivo. Fidel, o expansivo. Che, o internacionalista. Fidel, o líder cubano. Che, o jovem idealista de cabelos longos que se sacrifica pelos oprimidos. Fidel, o caudilho de barbas grisalhas que após 50 anos ainda controla a ilha de Cuba pelas mãos do irmão Raúl.

A revolução cubana, que surpreendeu um mundo bipolar ao instaurar o socialismo no hemisfério ocidental, teve dois grandes líderes unidos pela ideologia e pela amizade e separados por suas escolhas. Enquanto Ernesto Che Guevara abdicava do poder estabelecido para aventurar-se na África e na América do Sul, Fidel Castro administrava um regime centralizado em seu país natal.

O livro mostra que, a partir de uma associação política, inicia-se um relacionamento de amizade e camaradagem que mudaria de fato suas vidas. Desde os encontros preparativos da expedição revolucionária no México até os últimos dias de Guevara, já cercado nas montanhas bolivianas sem esperança de fuga, enquanto Fidel vivia os dias mais duros da Guerra Fria em Havana, o autor percorre os caminhos políticos dos dois líderes, mas sem perder o foco no tema principal: o envolvimento pessoal.

A narrativa de Reid-Henry guarda o melhor estilo jornalístico rápido e direto, uma envolvente reportagem, que mantém o leitor cativado com um ritmo que retoma a tensão dos acontecimentos daquela época. Apesar de tratar de figuras públicas com proeminência internacional, a pesquisa mantém a perspectiva das nuances e contradições de um relacionamento afetivo.

Entre o mito, de Che, e o sempre equívoco destino humano, de Fidel, está a morte do primeiro a lhes separar. A realidade impõe limites à preservação de uma aura heróica, que só atingem os que morreram jovens. Ou aqueles que não se viram diante das escolhas e seduções do poder. Guevara abandonou Cuba uma vez concluído o processo revolucionário para morrer em combate na selva. Fidel administra há 50 anos um estado burocratizado.

A pesquisa qualificada e a argúcia narrativa de Simon Reid-Henry, no entanto, têm o dom de devolver ao leitor, para além da história oficial, a figura de dois homens. Homens que emergem com o frescor da vida, por detrás das efígies do velho líder autocrático e do semideus generoso.

Serviço
Fidel e Che - Uma amizade Revolucionária
Dimon Reid-Henry
Tradução: Beatriz Velloso
576 páginas - R$ 69,90 (em média)
Editora Globo

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O gato que cantava de galo - Ricardo Filho


Vaidoso e independente, esse gato domina a paisagem do alto dos telhados. Loiro de olhos verdes, Alemão se acha irresistível e faz o maior sucesso com as gatinhas. E não é pra menos. É fácil simpatizar com ele logo nas primeiras páginas, mesmo quando se mostra interesseiro ou canta de galo, arrancando suspiros das gatinhas.

Mas o gato não quer compromisso com ninguém. Gosta mesmo é de passar as tardes na praia, sentindo a brisa fresca e se encantando com a imensidão do mar. Vive livre, leve e solto... até o dia que resolve seguir um perfume desconhecido.

Serviço
O gato que cantava de galo
Ricardo Filho
Ilustração: Mariana Newlands
40 páginas - R$ 34,90 (em média)
Editora Globo

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A história da alegria - Adam Potkay


A história da alegria – Da Bíblia ao Romantismo tardio, de Adam Potkay, segue o modelo inaugurado por Nietzsche em Genealogia da moral, no qual contrapõe o bem e o mal pagãos aos cristãos. Aqui, acompanha-se a alegria em suas metamorfoses ao longo da história ocidental. Se não há sentimento separado de um conceito, e se não há conceito separado de uma palavra, Adam Potkay faz a história de um sentimento que também é um conceito e uma palavra, em suas várias dimensões culturais, estéticas e comportamentais. O que ele chama, em suma, de “filologia cultural”. O livro conta com prefácio do próprio autor, e a tradução ficou a cargo de Eduardo Henrik Aubert, doutorando em história medieval pela École des Hautes Éstudes en Sciences Sociales. A história da alegria recebeu o prêmio Harry Levin da Associação Norte-Americana de Literatura Comparada na categoria de melhor livro de história literária de 2008.

Serviço
A história da alegria
Adam Potkay
Tradução: Eduardo Henrik aubert
424 páginas - R$ 64,90 (em média)
Editora Globo

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O homem do Povo - Oswaldo de Andrade e Patricia galvão


O semanário político O Homem do Povo, cuja coleção integral compõe este volume, foi publicado entre março e abril de 1931, e é a materialização do “salto participante” de Oswald de Andrade e de sua então mulher Patrícia Galvão, a Pagu. Os exemplares fac-similados pertencem ao Fundo Astrojildo Pereira do Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Cedem-Unesp). A publicação é uma coedição da Editora Globo e da Imprensa Oficial dos Estado de S. Paulo, com apoio do Museu Lasar Segall. O volume conta com textos esclarecedores de Augusto de Campos, Maria de Lurdes Eleutério e Geraldo Galvão Ferraz.

Depois de quase uma década de ativismo antropofágico, a crise mundial deflagrada pelo crash de 1929, com o empobrecimento geral e o enorme acirramento entre esquerda e direita, representadas pelo bolchevismo soviético e pelo ascendente nazifascismo europeu, levaria Oswald e Pagu à militância partidária. Assim, após se filiarem ao Partido Comunista do Brasil, passam a publicar O Homem do Povo, visando espalhar a mensagem da revolução entre o operariado urbano. Não funcionou.

Serviço
O homem do Povo
Oswaldo de Andrade e Patricia galvão
88 páginas - R$ 85,00 (em média)
Editora Globo

O livro de Dede Korkut


A Turquia é a nossa mais íntima desconhecida. Sabemos mais de países do Extremo Oriente, como a China, o Japão, o Tibet, a Índia. E no entanto, a Turquia tem um pé na Europa – é, assim, o mais próximo dos países asiáticos – e uma profunda presença na história ocidental. O Otelo de Shakespeare combate os turcos em Creta. Napoleão se bateu contra os turcos ao invadir o Egito. A primeira guerra moderna, a da Crimeia, opôs o Império Russo ao Império Otomano. Império Otomano que esteve no centro da Primeira Guerra Mundial, pois foi o esfacelamento de sua parte europeia, os Bálcãs, que gerou a instabilidade da qual ela se iniciou. O fim da Primeira Guerra, por sua vez, extinguiu o próprio Império Otomano e originou a atual Turquia, cujas instituições políticas, aliás, imitam as ocidentais. Mas o que sabemos, afinal, da Turquia? Sua localização entre a Europa e a Ásia, sua religião, o islã, sua condição de república laica, seu fundador Ataturk, Istambul, os sultões, os haréns. Mas o que sabemos, por exemplo, de coisas tão fundamentais como sua língua, sua literatura, seus hábitos, suas tradições, enfim, sua cultura?

Não é exagero dizer que, de alguns pontos de vista bastante sólidos, a Turquia é, em relação ao Ocidente, o mais próximo e o mais relevante país asiático, e estranhamente, o mais distante de nossos corações e mentes. A publicação de Dede Korkut Oguznameler, ou O livro de Dede Korkut, é um pequeno porém significativo passo para mudar tal situação no Brasil. Pois se trata do mais importante poema épico em língua turca (originária do centro da Ásia), traduzido diretamente por Marco Syrayama de Pinto, que também responde pelas notas e pelo detalhado prefácio, o qual inclui história, literatura e língua turcas (tornando esta edição ainda mais significativa). Vale registrar que este é o primeiro livro traduzido diretamente do turco a ser publicado no Brasil.

Serviço
O livro de Dede Korkut
Autor Anônimo
Trdução: Marco yrayama de pinto
248 páginas - R$ 39,90 (em média)
Editora Globo

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Adoniran - Celso de Campos Jr.


Adoniran – uma biografia, com suas quase 700 páginas e prefácio de Alberto Helena Jr., relançado agora no centenário do compositor (acrescido de um apêndice com seus scripts de rádio), em que pese seu subtítulo, é na verdade “a” biografia de Adoniran Barbosa.

Caetano Veloso afirmou ser Rita Lee a “mais completa tradução” de São Paulo. A frase, porém, não pode ser verdadeira, pois ela traduz apenas uma parte da cidade, a que é moderna, cosmopolita, urbana. Adoniran Barbosa é a mais completa tradução da outra parte: a dos bairros e subúrbios que nasceram ou como vilas de operários, ou como concentrações de migrantes e imigrantes. Ou seja, a parte maior, ainda que menos evidente – não fosse a obra do próprio Adoniran.

Adoniran Barbosa e sua música talvez sejam a dupla mais conhecida e reconhecida de paulistanos, a verdadeira cara de São Paulo, para os próprios paulistanos, provavelmente, e para os demais brasileiros, certamente. Suprema ironia, o “túmulo do samba” tem assim num sambista sua figura mais característica. Ironia que por acaso foi a figura de linguagem mais usada pelo próprio Adoniran, sambista mas também humorista. Além de cantor, ator, artista de circo e principalmente poeta. Pois foi sua linguagem inventiva, síntese dos muitos falares populares da cidade, que fez com que adquirisse duas grandes características dos poetas importantes: ter os versos reconhecidos por todos, e possuir um estilo tão particular que se sabe imediatamente ser sua uma dada letra. O que não pode mais ser percebido apenas pelo fato de sua obra ser muito conhecida.

Serviço
Adoniran
Celso de Campos Jr.
680 páginas - R$ 59,90 (em média)
Editora globo

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O leão e o chacal Mergulhador


O leão e o chacal Mergulhador, cujo subtítulo, numa de suas versões, é “Livro do leão e do Mergulhador, contendo dizeres sapienciais e paradigmas na língua de animais e histórias de reis e vizires”, recebeu sua forma final na Bagdá do século XII, constituindo-se numa sedutora mescla de tratado político, livro de etiqueta da corte, crítica de costumes e fábulas sapienciais de animais à la Esopo. Encadeando e desencadeando ensinamentos, sentenças, máximas, provérbios e pequenos contos, trama-se uma narrativa envolvente, cheia de sabor e saber, cujas partes vão se urdindo como as figuras de uma tapeçaria oriental. O trabalho de tradução, a cargo de Mamede Mustafa Jarouche, três vezes premiado por verter do árabe ao português o Livro das mil e uma noites, alia o máximo respeito às fontes originais a um grande senso literário, e o resultado é uma prosa fluente em nosso idioma que, ao mesmo tempo, transporta o leitor para muito longe, no tempo, no espaço e na imaginação, e quando menos espera, o traz de volta. O livro conta com prefácio de Olgária Chaim Féres Matos, e com posfácio e notas, tanto gerais quanto linguísticas, do próprio tradutor. Este, aliás, acaba de cumprir mais um feito na história do ofício de tradutor no Brasil: esta é a primeira vez que O leão e o chacal mergulhador é traduzido. Até o presente ano, ele só podia ser lido em árabe.

Serviço
O leão e o chacal Mergulhador
Anônimo
Tradução: Mamede Mustafa Jarouche
272 páginas - R$ 30,00 (em média)
Editora Globo

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O fio da Navalha


Darrel é um combatente da primeira guerra mundial que viu morrer o seu melhor amigo por ele. Este choque provocou em Larry o desejo de compreender o sentido da vida e partir da vida confortável que o conformismo lhe oferecia. Desfaz o noivado com Isabel e parte por esse mundo fora. Na busca do seu objectivo começa por frequentar obsessivamente bibliotecas, vive num mosteiro, trabalha numa mina de carvão, trabalha como lavrador à jorna e chega até a viver na Índia como eremita onde atinge a "iluminação".

Os outros personagens representam os outros contrastes do mundo, desde aqueles que consideram a cultura uma posse exclusiva de uma elite estanque, em que ser culto é uma condição que se deve ao “status” e não por ter conhecimentos, considerando todos fora da sua esfera como pobres analfabetos. Até aqueles que buscam a autodestruição devido às agruras que a vida lhes ofereceu. Maugham expõem aqui toda a mesquinhez e futilidade de um “jet-set” do inicio do século XX, cujo sofrimento é banal e insignificante face a quem realmente sofre e que também por isso, caminhava a passos largos para a decadência, numa América do Norte e Europa em constante mudança e instabilidade.

Numa visão mais ampla este livro é um confronto de um mundo velho contra aquilo em que se transforma, um instável mundo novo que busca novos caminhos em diferentes direcções. Partindo desde o fim do primeiro conflito mundial e os “loucos anos vinte”, passando pela crise de 29 e chegando até aos meados da década de 30 do século XX.

O autor Somerset Maugham é um dos personagens que estabelece a ponte entre todos os outros personagens numa escrita fantástica, que nada deixa ao acaso. Brinca com todos os pormenores, mas sem fazer descrições maçadoras, conseguindo fazer com que o leitor sinta todos os ambientes descritos no livro, que acaba por se tornar numa agradável companhia.

Serviço
O Fio a Navalha
Somerset Maugham
Tradução: Lino Vallandro e Vidal Serrano
560 págians - R$ 23,00 (em média)
Editora Globo

domingo, 3 de janeiro de 2010

Chagall


O artista é fruto de Vitebsk, no então Território do Assentamento, onde Catarina, a Grande confinara todos os judeus de seu império. Mas a Revolução Russa e duas guerras mundiais o levaram para o exílio, onde teve a oportunidade de pintar a história do século XX. O pintor terminou seus dias como um mestre em Paris. O livro mostra que o período em Vitebsk, além de legar uma relação desesperada com a comida, tingiu o cotidiano do pintor com as tradições judias ortodoxas, uma segunda realidade palpável no cerne da vida diária e tema recorrente em suas pinturas, ao lado de questões como nascimento, amor e morte e o temperamento vulnerável do artista e sua dependência das mulheres.

Serviço
Chagall - Vida e exílio
Jackie Wullschlager
Tradução: Maria Silvia Mourão Netto
735 páginas - R$ 89,00 (em média)
Editora Globo

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Haicais - Quintana


O livro de haicais, de Mario Quintana, reúne todos os poemas do escritor gaúcho que ele intitulou diretamente como haicais e ainda os que, sem terem sido por ele assim nomeados, são, em tudo e por tudo, haicais de Quintana. Selecionados e organizados por Ronald Polito, e ilustrado pelo traço inspirado de Roberto Negreiros, o volume conta com posfácio envolvente e esclarecedor de Paulo Franchetti, reconhecido especialista no assunto.

Serviço
O livro dos Haicais
Mário Quintana
90 páginas - R$ 39,00 (em média)
Editora Globo

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Wilson Simonal e seus enigmas


De menino pobre a ídolo pop. De maior astro do país ao banimento sumário dos palcos, da mídia, da história. Wilson Simonal descreveu a mais meteórica e trágica curva de ascensão e queda já vista no Brasil. Na metade final dos anos 1960, Simonal rivalizava apenas com Roberto Carlos em termos de popularidade. Dez anos depois, acusado de ser o mandante do sequestro e tortura de seu contador, foi estigmatizado como delator a serviço da ditadura militar – e, oficiosamente, acabou condenado ao ostracismo artístico até morrer em 2000, corroído pelo álcool, pela depressão e pelo esquecimento do público.

Simonal era culpado ou inocente? Dedo-duro ou vítima de difamação movida por rancor, inveja, racismo? A polêmica, que se arrasta há quase quatro décadas, foi reacendida de vez em 2009, com o lançamento do documentário Ninguém sabe o duro que dei, dirigido por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, cuja repercussão pôde ser medida pela avalanche de artigos em jornais, revistas e blogs com pontos de vista divergentes acerca de fatos, versões e mitos relativos ao “caso Simonal”, numa espécie de processo coletivo de exumação da história recente do Brasil.

Nesse contexto, Nem vem que não tem – A vida e o veneno de Wilson Simonal, biografia escrita por Ricardo Alexandre que chega agora às livrarias, é uma contribuição mais do que bem-vinda. Jornalista musical e diretor de redação da revista Época São Paulo, Alexandre dedicou boa parte dos últimos dez anos a um paciente trabalho de investigação sobre a vida do autodenominado “rei da pilantragem”. Além de se debruçar sobre jornais, revistas, filmes, discos e documentos de época, realizou centenas de entrevistas a fim de produzir aquele que talvez seja o mais completo retrato do cidadão Wilson Simonal de Castro, antes, durante e depois da fama.

Serviço
Nem vem que não tem – A vida e o veneno de Wilson Simonal
Ricardo Alexandre
392 páginas - R$ 39,90 (em média)
Editora Globo

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Cyro dos Anjos

Poemas coronários dá continuidade à publicação das Obras reunidas de Cyro dos Anjos, coordenadas e fixadas por Wander Melo Miranda. Trata-se de poemas surpreendentes por vários motivos.

Em primeiro lugar, por seu autor ser um romancista consagrado. O aparante paradoxo reside no fato de que a história literária oferece muito poucos exemplos de ficcionistas que são também poetas (e vice-versa), pois as duas linguagens têm naturezas bastante distintas. Em segundo lugar, por seu título. Coronário é, denotativamente, relativo a coroa, podendo então se tratar de um livro que culmina, que coroa uma obra (de fato, trata-se de seu último livro, publicado originalmente em 1964). No entanto, aqui coronário se refere mesmo à circulação cardíaca, e mais especificamente, à doença cardíaca: um título mais fisiológico do que propriamente literário. E em terceiro lugar, porque seus poemas são difíceis de enquadrar.

Eles dialogam, na verdade, com várias tradições, e o que faz sua unidade na disparidade são, ao mesmo tempo, a ironia e a reflexão. A primeira pode ser de viés modernista, e então mais explícita, como no oswaldiano “Não sei quem sou nem o que valho” (poema 6, p. 39), que começa em tom sério-lamentoso para terminar com uma inversão coloquial, com Robinson Crusoé “acendendo seu foguinho na ilha”. Ou pode se dar na forma de paródia explícita, como na abertura (“Lira Ingênua de Belmiro Montesclarino, Cavaleiro da Ordem Hospitalária e Escritor Menor, Membro da Academia dos Angustiados. Compostos durante a Enfermidade do Autor, Que, segundo se Verá, é Imperito nas Artes Poéticas, Mas em Temerário Assomo Quis Dar Expressão às Visões e Efusões das noites em claro”). Ou pode, ainda, como afirma Paulo Franchetti em seu esclarecedor posfácio, em clave reflexiva, “ser uma poesia que alcança momentos de densidade e tensão lírica, como, por exemplo, no poema 10, que também pode ser lido numa clave metalinguística. Esse poema, por sinal, poderia sintetizar, no que diz respeito à literatura e à atitude belmiriana em relação a ela e à vida [...]: os salvados do naufrágio são não apenas a melancolia e o fastio, que dão o tom da vida, mas o seu tempero, que gera o culpado impulso criador, a vaidade e o amor próprio, sempre reprimidos/ repontando sempre”.

Conclui, então, o posfácio, unindo afinal estes poemas à obra consagrada do romancista belmiriano: “É esse movimento do renovado renovar do reprimido, sob a tinta da melancolia e do tédio, que aqui, nestes versos de renascimento, tão culpadamente se celebra. É ele que dá o tom do pequeno volume de versos e constitui a sua novidade em relação à paz do túmulo em que se encerrara, ao final do seu romance irresolvido, o amanuense Belmiro, aqui transmigrado em Belmiro Montesclarino, redimido da morte para melhor encená-la nesse livro estranho e perturbador”.

Serviço
Poemas coronários
Cyro dos Anjos
80 páginas - R$ 23,00 (em média)
Editora Globo

Poemas - Poe

Edgard Allan Poe, escritor, crítico e poeta norte-americano, nasceu em Boston a 19 de janeiro de 1809 e morreu em Baltimore a 7 de outubro de 1849. Iniciou seus estudos em Glasgow, na Escócia e continuou num internato em Londres, quando sua família adotiva lá se estabeleceu. Voltou aos Estados Unidos em 1820 tendo escrito seus primeiros poemas em 1823.

Poe escreveu poucos poemas, entre os quais se destacam "The Raven" (O Corvo), um dos mais traduzidos do mundo, "Annabel Lee", "For Annie" (Para Annie), "Ulalume", "The Bells" (Os sinos), todos apresentados neste volume, em traduções rigorosas.

Seus contos, publicados em jornais da época e mais tarde reunidos em livro, atraíram um público amplo e sempre fiel. Com "Os crimes da rua Morgue" deu início ao moderno conto policial. Suas narrativas de mistério e terror, como "A queda da casa Usher" e "Nunca aposte sua cabeça com o diabo" são a expressão máxima do gênero gótico.

Dentre seus escritos nos terrenos da estética, da crítica e da teoria literária, "A Filosofia da composição (1845) e "O princípio poético" (1850), ambos presentes à esta edição, são exemplos da extensão da genialidade de Poe para além do terreno estritamente literário.

Além de um escritor popular, transformou-se em referência para autores de alta literatura como Jorge Luis Borges e Charles Baudelaire, este último, grande divulgador da obra de Poe na Europa. O ensaio "Edgard Allan Poe", em que Baudelaire faz uma apresentação da obra e da vida atribulada de Poe é reproduzido nesta edição revista da Editora Globo.

Para Baudelaire, "As personagens de Poe, ou melhor, a personagem de Poe, o homem de faculdades superagudas, o homem de nervos relaxados, o homem cuja vontade ardente e paciente lança um desafio às dificuldades, aquele cujo olhar está ajustado com a rigidez de uma espada, sobre objetos que crescem à medida que ele os contempla – é o próprio Poe".

No livro "O outro, O mesmo" de 1964 ( Obras Completas de Jorge Luis Borges, Volume II, Editora Globo, 1998, página 313 ), Borges destaca a coragem de Poe em enfrentar a matéria sombria da sua literatura.

Serviço
Poemas e Ensaios
Edgar Allan Poe
Tradução: Oscar Mendes e Milton Amado
294 páginas - R$ 22,00 (em média)
Editora Globo

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Literatura em traços

Há uma relativamente longa tradição de quadrinhos políticos na América Latina. Basta pensar na Mafalda de Quino. O também argentino Perramus, porém, é um caso à parte. Primeiro, por se tratar de uma narrativa longa – na verdade, uma série; segundo, por abordar situações reais (ainda que não de forma realista), como a ditadura militar dos anos 70; terceiro, por seu altíssimo nível gráfico. Mas se a série Perramus é, de certa forma, uma história da ditadura argentina, é também uma homenagem à cultura das Américas, do western aos labirintos de Borges.

Assim, este Dente por dente (176 pp., tradução Michele Strzoda e André de Oliveira Lima), quarto livro do personagem “sem nome” – Perramus é a marca da capa de chuva que usa –, e o mais “aventuresco” de seus álbuns, segundo os próprios autores, envolve, entre outras coisas, uma frenética busca internacional por um dente perdido de Carlos Gardel (após uma tipicamente argentina profanação de sua tumba), envolvendo o próprio Borges (magnificamente retratado).

Serviço
Perramus - dente por dente
Alberto Breccia e Juan Sasturaine
Tradutor: Michelle Strzoda e André de Oliveira
176 páginas - R$ 40,00 (em média)
Editora Globo

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A vida em Ruanda pelos olhos de uma mulher

Apesar dos avanços nas questões femininas, a realidade das mulheres em países marcados por conflitos étnicos e religiosos ainda é bastante dura. Em Ruanda, país africano que aos poucos se recupera de um genocídio, meninas e mulheres adultas sofrem com a falta de oportunidades para estudar e trabalhar. Este cotidiano é o cenário do romance de estreia da zambiana Gaile Parkin, Assando bolos em Kigali.

A obra é protagonizada por Angel Tungaraza, uma mulher no início da menopausa que muda com o marido e os cinco netos da Tanzânia para Ruanda. A dona de casa logo decide abrir seu próprio negócio para melhorar a renda familiar e começa a vender bolos decorados sob encomenda para a vizinhança, composta em sua maioria por estrangeiros. Dividida entre questões de ética profissional e fantasmas de seu passado, Angel se envolve na rotina de sua pequena comunidade e atua como um agente de mudança, resolvendo conflitos domésticos, promovendo uniões amorosas e compartilhando segredos.

Mesmo com todas as dificuldades enfrentadas por seus vizinhos, o negócio vai bem – e uma boleira só consegue obter sucesso se as pessoas tiverem motivos para comemorar. Ao perceber a capacidade de superação daqueles que a cercam, Angel aprende a lidar com suas chagas e a tolerar as diferenças culturais de seu novo país.Assando bolos em Kigali é um romance leve e delicado que mostra, sobretudo, o poder da mudança, seja física, como a menopausa de Angel; política, como as que se iniciam em Ruanda; ou mais profunda, psicológica e cultural, somente possível por meio da solidariedade entre os seres humanos.

Serviço
Assando bolos em Kigali
Gaile Parkin
Tradução: Helena Londres
320 páginas - R$ 38,00 (em média)
Editora Globo