
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Bel-Ami - Guy de Maupassant

sábado, 12 de junho de 2010
Figurino teatral e as renovações do século XX - Fausto Viana

Serviço:
Figurino teatral e as renovações do século XX
Fausto Viana
296 páginas - R$ 67,00 (em média)
Editora Estação das Letras
sábado, 29 de maio de 2010
Um conto de duas cidades - Charles Dickens

A peculiaridade deste romance começa na condição indissociável da escrita de Charles Dickens: é obviamente com o olhar estrangeiro e não raro antagônico de um inglês que ele dá vazão à sua trama. No entanto, isso não o impede de ir ao fundo de questões fundamentais e de compor um quadro impressionante do que foi aquele período da história da França para os homens da época. O autor evita o posicionamento político, centrando a narrativa nas observações de cunho social e no impacto individual que aquele processo impingiu a pessoas de todas as camadas. O aristocrata, o burguês, o camponês, o malandro, o vagabundo. Estão todos ali.
De um lado, encontramos personagens como o ex-prisioneiro da Bastilha, doutor Manette; Charles Darnay, o aristocrata que rompe com a família e com sua classe social; o senhor Lorry, a personificação do inglês sistemático e virtuoso; a senhora Defarge, face cruel e impiedosa das jacqueries; o enigmático Sidney Carton, aquele que confere à trama o que ela tem de mais romanesco e sem dúvida um dos grandes personagens da literatura inglesa. Todos eles de personalidades marcantes, na melhor tradição do romance folhetinesco. De outro lado, contrapõe-se a multidão: o povo miserável de Paris e de seus arrabaldes, ora animalizado na pobreza à qual os empurrou uma voraz aristocracia, ora plateia ensandecida do espetáculo dantesco de “La Guillotine”.
Acusado por vezes de abusar de certas cores melodramáticas, de jogos de acasos e coincidências quase impossíveis, Dickens não se exime aqui de tais “delitos”: ao contrário, ali estão eles, preciosos, conduzindo o leitor entre Paris e Londres, entre a felicidade e o patíbulo, evitando que se sinta vertigem ou repugnância enquanto se passeia na circularidade tenaz de seu enredo.
Serviço:
Um conto de duas cidades
Charles Dickens
Tradução: Débora Landsberg
480 páginas - R$ 62,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
terça-feira, 25 de maio de 2010
O lago - Yasunari Kawabata

Contudo, não há inocência nas mulheres escolhidas. Enquanto o protagonista caminha angustiado atrás de uma aluna desafiadora ou de uma beldade que passeia lépida com seu cão, ou até quando, no encalço da amante de um velho rico, é golpeado com uma bolsa cheia de dinheiro, Kawabata não se furta a apresentar os inusitados sentimentos de suas vítimas, tornando a narrativa muitas vezes perturbadora. Essa perseguição de mulheres geralmente jovens ou muito jovens, levada às últimas consequências, conduz o personagem de volta a traumas remotos. O passado retorna, por vezes de forma alucinatória, e não permite trégua à sua mente confusa.
Movido por sentimentos de culpa e desejo, Ginpei é bem diferente dos outros personagens do Prêmio Nobel de 1968: o viés contemplativo se subverte em uma natureza épica e doentia. Errante e insólito, ele se esvai em delírios dostoievskianos enquanto se torna cada vez mais excluído socialmente. Torna-se o anti-herói na contramão de um Japão em plena recuperação pós-guerra e na euforia do milagre econômico que se anunciava.
Serviço
O lago
Yasunari Kawabata
Tradução: Meiko Shimon
164 páginas - R$37,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
Quinquilharias Nakano - Hiromi Kawakami

O senhor Nakano, o proprietário um tanto filósofo e cheio de artimanhas, as quais tenta ensinar com uma sabedoria toda sua, está em constante busca de aventuras amorosas; sua irmã Masayo é uma bem-humorada artista de pouca expressão. Hitome, a narradora que tudo observa com seu olhar tão cool, e Takeo, o faz-tudo taciturno e enigmático e “péssimo nessas coisas de sexo”, como ele mesmo diria, os auxiliam o quanto podem. A ocidentalização da cultura japonesa, a rivalidade com a China (“O problema é o Made in China na parte de trás da peça — informou o senhor Nakano, tranquilo, depois de deixar o cliente reclamar com rispidez”) e outras questões na ordem do dia compõem uma narrativa que faz o tempo correr maliciosamente, contextualizando a excelente e premiada Hiromi Kawakami entre as vozes ácidas e por vezes dissonantes de uma nova literatura japonesa que se faz necessário difundir.
Uma sensualidade audaz desfila pelo romance — “[...] a curta cena de sexo com Takeo de cinco milhões de anos antes parecia estar grudada em metade de meu cérebro. A outra metade estava preenchida por algo morno e nebuloso como o ar quente do aquecedor a querosene” —, sempre impregnada de certa dose de melancolia, e revela amores malogrados de solitários quase convictos, inserindo-o nessa espécie de “escola” que se notabiliza por um texto sereno, meio blasé, de um charmoso ceticismo no que diz respeito às relações humanas na imensidão das metrópoles japonesas, a começar por sua capital.
Serviço
Quinquilharias Nakano
Hiromi Kawakami
Tradução: Jefferson José Teixeira
288 páginas - R$ 46,00 (em média)
Editora Estação LIberdade
O fuzil de caça - Yasushi Inoue

Lançando mão da tradição do romance epistolar, convida o leitor à posição de voyeur de uma comunicação unilateral e inusitada entre um caçador, Josuke Misugi, e um escritor. Três cartas, endereçadas a um mesmo homem por três mulheres diferentes, imprimem uma textura trágica à trama.
O jogo de narradores; as cartas como único veículo para a torrente de alta tensão emocional que se revela ao leitor; o exercício constante da concisão e o lirismo que transpira de uma prosa que se mantém sempre vizinha do território poético: a estética e o conteúdo se entrelaçam, e o entrecho se apresenta belo como uma trilha na neve. Ao mesmo tempo, o equilíbrio entre o que é dito e o que é velado mantém o mundo da solidão presente em cada linha e constante em todos os personagens. Permeiam estas páginas o isolamento e a carência de franqueza nas relações humanas, que as cartas reveladas por Misugi tentam romper e atravessar.
Serviço
O fuzil de caça
Yasushi Inoue
Tradução: Jefferson José Teixeira
112 páginas - R$ 29,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Descrever o visível/Cinema documentário e antropologia fílmica

Reunindo dez textos relevantes a respeito da chamada antropologia fílmica, a obra apresenta, por meio de reflexões conceituais e estudos de caso, olhares diversos — mas, não raro, convergentes — sobre os procedimentos de mise en scène do documentarista frente aos inúmeros desafios que esse tipo de aproximação do objeto de estudo acarreta: desde as dificuldades de inserção em algumas sociedades não acostumadas ao “intruso” cineasta, passando pela quase sempre inevitável perda de naturalidade ocasionada pela presença da câmera e chegando à perigosa fase de edição.
O que mostrar, como mostrar e por que mostrar são questões primordiais e cotidianas ao documentário antropológico e norteiam as ponderações presentes nos dez textos que integram o livro. “A seleção de textos, artigos, e excertos de pesquisas e teses aqui apresentada não tem como vocação primeira propor resultados, mas, antes, mostrar o pesquisador durante a fase, frequentemente crítica, em que ele se encontra às voltas com a parte fílmica de seu trabalho — fase na qual se engaja em uma espécie de segundo corpo a corpo com ‘os homens e a matéria’, que reproduz, de maneira diferida, aquele que ele realmente viveu e exerceu quando do registro propriamente dito das imagens —, e onde começa o encaminhamento analítico de sua abordagem.
Com efeito, é o momento crucial em que, após ter mensurado seus eventuais sucessos e seus inevitáveis malogros ou imperfeições, o pesquisador deve, em seguida, levar em conta e tirar partido de certos dados coletados cinematograficamente. Dessa forma, penetra-se no laboratório de pesquisa, uma vez que as imagens fílmicas recolhidas [...] constituem, para o pesquisador-cineasta, um segundo trabalho de campo.” (M. Freire e P. Lourdou, na introdução ao livro).
Serviço
Descrever o visível
Cinema documentário e antropologia fílmica
Organização: Marcius Freire e Philippe Lourdou
320 páginas - R$ 45,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
O som da montanha

A cada dia Shingo Ogata trava novos confrontos com a memória que desvanesce. Preocupado com a decadência moral de seus descendentes, divide-se entre a difícil função de chefe de família e o clamor da beleza que o traga a todo instante para paisagens que estão além de seu convívio com os homens.
Parte da chamada “trilogia dos sentimentos humanos”, ao lado de O país das neves (Estação Liberdade, 2004) e Mil tsurus (Estação Liberdade, 2006), a presente obra constitui um exercício estilístico de rara felicidade: resultado da busca de vida inteira pela depuração total da arte romanesca, a simplicidade do narrar aqui se apresenta plena, suave, homogênea.
Kawabata maneja com habilidade seus personagens em meio ao delicado tecido dramático. Com a sutileza que lhe é peculiar, faz brotarem da narrativa os demônios pessoais que a rigidez da família japonesa não é capaz de conter em uma era de incertezas, abalada pela crise de identidade que sobreveio à Segunda Guerra Mundial. Shingo Ogata, representante de uma geração que se despede, luta para fazer valer sua autoridade e a sabedoria da tradição, mas é incessantemente capturado por flores, cantos de pássaros, e mais amiúde pela beleza e delicadeza da jovem nora, Kikuko. Apresentando os primeiros laivos de senilidade, Ogata já não está totalmente presente. Sua existência lírica anuvia sua vida prática.
Mais uma obra magistral do Prêmio Nobel Yasunari Kawabata: em O som da montanha dançam, de mãos dadas a uma observação arguta da moderna sociedade japonesa, reflexões sobre vida e morte (em especial sobre a possibilidade do suicídio, ao qual se entregaria o próprio autor em 1972), momentos de profundo lirismo contemplativo e a beleza suave do erotismo na velhice. Aos fundos da casa, a vista para a montanha, cujas mensagens Shingo Ogata vai aos poucos se tornando capaz de decifrar.
Serviço
O som da montanha
Yasunaria Kawabata
Tradução: Meiko Shimon
344 páginas - R$ 53,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Diário dos Moedeiros Falsos

Tarefa difícil dar conta da magnitude de Os moedeiros falsos. Romance sobre a construção do romance, é ao mesmo tempo romance de formação, flerta com o estilo folhetinesco, com o romance policial, o romance de ideias... Diz o personagem Édouard a certa altura: “[...] as ideias, confesso, interessam-me mais do que os homens; interessam-me acima de tudo. Elas vivem; combatem; agonizam como os homens. Naturalmente pode-se dizer que só as conhecemos pelos homens, assim como só temos conhecimento do vento pelos caniços que ele inclina; mas mesmo assim o vento importa mais que os caniços.”
Bernard, Olivier e Édouard são os rapazes que formam a tríade central de personagens. Bernard, o filho que deixa o lar em busca de identidade, um bastardo na pele do filho pródigo; Olivier, seu grande amigo, intelectual como ele, mas sempre no limiar entre a vaidade e a insegurança. Tio de Olivier, algo mais velho que os dois, Édouard fecha o núcleo que norteará o leitor em meio ao sistema caleidoscópico e polifônico de Os moedeiros falsos. Em especial este último: é por meio do diário de Édouard (escritor, ele planeja escrever um romance chamado Os moedeiros falsos) que o leitor é tragado pela estrutura abismal — mise en abyme, segundo Gide — da obra dentro da obra, onde os limites entre o ficcional e o real se atenuam e vêm à tona a metalinguagem e a reflexão sobre as possibilidades e os limites de um romance.
Anterior ao esquema de falsificação armado por Victor Strouvilhou, quiçá esteja outro tipo de “moeda falsa”. Se nos Porões do Vaticano o elemento diabólico encontra seu totem na figura de Lafcadio, aqui ele se dissemina. Há como que uma brisa funesta a perpassar todo o enredo, o qual, no entanto, encontra seu equilíbrio na juventude e na pureza de alguns de seus cativantes personagens: um erotismo sutil, combinado com a causalidade e a inconsequência. “Quando eu era mais jovem, tomava resoluções que imaginava nada virtuosas. Preocupava-me menos em ser quem era do que em me tornar quem pretendia ser. Agora, pouco me falta para ver na irresolução o segredo para não envelhecer.”
Serviço
Diário dos Moederios Falsos
André Gide
Tradução: Mário Laranjeira
144 páginas - R$ 62,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
O Pombo-Torcaz

Em 28 de julho de 1907, André Gide, que se hospedava na propriedade de seu amigo Eugène Rouart em Bagnols-de-Grenade, próximo a Toulouse, encontra um jovem, Ferdinand, filho de um empregado da herdade. Com este, que ele apelidará carinhosamente de “pombo-torcaz” — ramier, em francês — em razão de uma espécie de “arrulho” que ele emitia ao fazer amor, o futuro Prêmio Nobel, à época quase quadragenário, viverá uma noite de êxtase que o fará sentir-se “dez anos mais jovem”.
Arrebatado pelo acontecimento, Gide se lança no relato lírico e minucioso desse episódio, ao qual terão acesso apenas alguns amigos muito próximos, entre os quais Jacques Copeau. Gide volta várias vezes a Bagnols, e se preocupa com o destino de Ferdinand, que morreria em 1910. Seu Pombo-torcaz, no entanto, não seria jamais publicado.
Quase um século após haver sido escrito, encontrado recentemente por Catherine Gide em meio aos arquivos de seu pai, apresentamos este Pombo-torcaz, mundialmente inédito e cuja publicação Catherine finalmente autorizou, consagrando a “emoção da descoberta erótica, a alegria da cumplicidade, a vitória do desejo e do prazer partilhados”, como ela escreve no preâmbulo.
No prefácio e no posfácio, Jean-Claude Perrier e David Walker debruçam-se sobre esta insólita peça narrativa e enriquecem a edição com excertos inéditos da correspondência André Gide–Eugène Rouart.
Serviço
O Pombo-Torcaz
André Gide
Tradução: Mauro Pinheiro
256 páginas - R$ 40,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
Os porões do Vaticano

Na França dos séculos XIV e XV, as farsas satíricas eram conhecidas como soties. Assim Gide classifica este Porões do Vaticano, livro que tanto o teria divertido durante o processo de criação.
O prazer experimentado na leitura não é diferente: logo ao princípio, deparamo-nos com personagens marcantes e caricatos, como o maçom Anthime Armand-Dubois, que oscila entre o ceticismo e a fé, a qual não resiste, por sua vez, ao final da história; Amédée Fleurissoire, católico fervoroso que no transcurso da obra é manipulado, pervertido e enganado... E Julius de Baraglioul, escritor que luta para sair da mediocridade.
Algo de muito misterioso envolve a figura do papa, que teria relação com “o antigo mausoléu de Adriano, aquela célebre prisão que, em secretas masmorras, havia outrora abrigado muitos prisioneiros ilustres, e que um corredor subterrâneo liga, ao que parece, ao Vaticano”. Organiza-se uma quixotesca cruzada para resgatá-lo; Protos, o vigarista, entra em cena; o fio da trama se tensiona e assim se manterá até o final da narrativa. O texto flutua na fronteira entre o teatro e o romance, às vezes assumindo ares de farsa ou de comédia barroca, subvertendo os modelos balzaquianos, apresentando aqui e ali toques de uma estética noir.
Espécie de personagem exemplar, encontramos Lafcadio, irmão bastardo de Julius. Se os personagens descritos acima são responsáveis pela nota cômica, é ele quem dá o charme, o desconforto e o horror à tessitura da história. Este livro de 1914 marca a ruptura de Gide com a Igreja e seus primeiros passos rumo à subversão de cânones estilísticos e ideológicos que se completaria em obras como Se o grão não morre (1919) e Corydon (1924). Por sua vez, Lafcadio, alheio ao escrúpulo, capaz de executar atos de heroísmo ou atrocidades com a mesma naturalidade, e que já anuncia à literatura contemporânea possibilidades estéticas como a de um Meursault, de Camus, é a negação de toda e qualquer moral. Sua figura se estende através da narrativa como a promessa assustadora da liberdade total e não permite que o leitor, em nenhum momento, esteja confortável em sua companhia.
Serviço
Os porões do Vaticano
André Gide
Tradução: Mauro Pinheiro
256 página - R$ 40,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Quero mais é que se danem!!!

Dois velhos amigos octogenários, cujas trajetórias de vida foram e continuam sendo marcadas pela lucidez, acompanhados pelo jovem neto de um deles, protagonizam a narrativa.
A ação decorre da conversação entre os três, ampliada por digressões relativas a fatos que cobrem os últimos 70 anos, da adolescência dos dois velhos até a atualidade, em diversos países da Europa e das Américas, dando ensejo a confrontações e reflexões a respeito das idiossincrasias do mundo contemporãneo, com forte dose de sarcasmo e ironia, permitidos a quem viveu plenamente uma vida de viagens, buscas, realizações e militâncias diversas. Digna de nota a cena do cozinheiro polonês do trem que viraria um sui generis guarda-costas. Igualmente tocantes os episódios da resistência italiana durante a Segunda Guerra.
Da Orelha
“Viver intensamente a vida, participar ativamente da história, acumular extraordinária riqueza na memória afetiva. E quando já muitos anos são passados, recordar tudo o que se fez e se viveu sem ter na consciência o peso de ter ficado à margem, sem arrependimento pela vida que poderia ter sido e que não foi. E todas as lembranças chegam envoltas num halo de poesia e de reflexões positivas, tendo como referências grandes poetas e pensadores que elevaram às culminâncias a espiritualidade humana. Não há mágoas nem ressentimentos e não há espaço para os que não deram contribuição positiva e só tiveram e têm da vida e da história dos homens e dos povos uma avaliação pessimista, num derrotismo crônico. As memórias aqui reunidas são todas positivas, com variações que são comparadas, às vezes, às vibrações de uma grande sinfonia e, outras vezes, ao encanto suave de uma sonata ou de um noturno acalentador.
Tudo isso se encontra neste livro, que é, basicamente, uma sequência dinâmica de lembranças que são testemunhos e que permitem caminhar com o autor pelos meandros da história do século XX, com a segurança e as emoções de quem viveu essa história. Além da variação de épocas e do testemunho de intensas lutas travadas em defesa dos valores supremos da humanidade e da própria sobrevivência humana, aqui também se encontra o registro da diversidade de situações e das diferentes perspectivas decorrentes das diferenças culturais, pois pelas mãos e pelos olhos do autor viaja-se por vários continentes e países, e na rememoração de experiências vividas caminha-se intensamente no tempo e no espaço. Em todas as circunstâncias o balanço das memórias é positivo e a visão é otimista. Que se danem os derrotistas e pessimistas, porque neste livro não há espaço nem ambiente para eles.”
Serviço
Quero mais é que se danem!
Mario Lorenzi
294 páginas - R$ 43,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Arquitetura pelas escadas

Em Arquitetura pelas escadas, a arquiteta e fotógrafa Patrícia Cardoso conta histórias inusitadas da capital paulista, num livro com mais de 60 fotos de escadas e rampas que expressam estilos arquitetônicos de diversas épocas da cidade.
A câmera de Patrícia guia o leitor pelos meandros desses elementos da arquitetura paulistana, desde a tradicional escada do saguão principal do Museu Paulista – Ipiranga (Tommaso Gaudenzio Bezzi, 1883), passando pela escada-rampa que Lina Bo Bardi desenhou para o subsolo do Museu de Arte de São Paulo (1957), até chegar à escada caracol da Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim, concebida por Isay Weinfeld (2008).
Suas fotos destacam peculiaridades às vezes despercebidas por muitos, cuidadosamente retratadas. Como a própria autora diz na apresentação do livro, ela foi se afeiçoando por cada uma das escadas e rampas que fotografava, à medida que ouvia relatos sobre a arquitetura de cada obra, e isso influenciou, inevitavelmente, o foco e o ângulo das imagens registradas.
Como escreve Simonetta Persichetti na orelha do livro: “A cada degrau, um olhar diferente. Nenhuma imagem se repete e o ritmo que ela criou ao editar as imagens só fez crescer a idéia que suas escadas não são obra de construção, mas criação de novos desenhos. A cada escada uma história particular em que ela aponta jogos de linhas, de formas e volumes. Surpresa a cada imagem que nos é aqui apresentada pelos olhos curiosos de Patrícia, já que, sim, ela tem um olhar fotográfico”.
Serviço
Arquitetura pelas escadas
Patrícia Cardoso
128 páginas - R$ 39,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
A Morte
Durante toda sua vida Elias Canetti (Prêmio Nobel de Literatura 1981) refletiu e escreveu sobre a morte. Dois desafios estão no centro de seu pensamento, que parecem contradizer-se. Primeiro: é necessário jamais esquecer a morte. Depois: é necessário sempre resistir à morte.
Este livro oferece uma compilação de breves anotações e de passagens mais extensas extraídas das obras de Canetti. No posfácio, Thomas Macho sai em busca de uma sistematização para as colocações do arguto pensador e mestre das formulações precisas que nunca se esquivou de confrontar-se com a morte.
Serviço
Sobre a morte
Elias Canetti
Tradução: Rita Rios
160 páginas - R$ 35,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
Festa sob as bombas
Em seus anos tardios — depois de suas três importantes obras autobiográficas, A língua absolvida, A luz em meu ouvido e O jogo dos olhos (Companhia das Letras) — Canetti recorda a década que passou na Inglaterra, seus melhores anos, durante os quais, distante da língua alemã, redigiu sua obra-prima Massa e poder (1960) e passou tempos movimentados. Em vida não ousou levar a público tanta coisa tão pouco recuada no tempo, mas agora abre-se o tesouro: um texto bem-humorado e irreverente sobre nobres mimados e imigrantes paupérrimos, sobre poetas convencidos e belas pintoras, sobre um pastor carola e um varredor de rua metido a filósofo e — com grande transparência — sobre o relacionamento com a escritora Iris Murdoch, que mais tarde se tornaria famosa.
O pesquisador e crítico literário Jeremy Adler era conhecido de Canetti desde o início de seus anos ingleses e lhe foi muito próximo no último período. Em seu abrangente e tocante posfácio traz em primeira mão elementos que nos revelam um Canetti dos bastidores.
Serviço
Festa sob as Bombas - os anos ingleses
Elias Canetti
Tradução: Markus Lasch
232 páginas - R$ 46,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
A globalização e as cidades
Com a globalização, ei-nos projetados para o “pós-cidade”, para o “pós-urbano”. Na Europa, estávamos habituados a ver a cidade como um espaço circunscrito no qual se desenvolve uma vida cultural, social, política, tornando possível uma integração cívica dos indivíduos... Somos agora confrontados de um lado com metrópoles gigantescas e sem limites, e de outro com o surgimento de entidades globais, em rede, cortadas de seu ambiente. A reconfiguração que ora ocorre suscita inquietação: iremos assistir ao declínio irremediável dos valores urbanos que acompanharam a história ocidental? Prevalecerão inelutavelmente a fragmentação e o estiramento caótico? Estaremos condenados a lamentar a polis grega, a cidade do Renascimento, a Paris das Luzes, as grandes cidades industriais do século XIX?
Relembrando os elementos distintivos que compõem a experiência da urbe, Olivier Mongin assenta os fundamentos de uma reflexão atual sobre a condição urbana. Vivemos numa época na qual a informação se troca de forma imaterial, mais de acordo com os fluxos do que com os lugares: como, nessas condições, refundar e reformular espaços urbanos de acordo com nosso tempo?
Serviço
A condição urbana
A cidade na era da globalização
Olivier Mongin
Tradução do francês: Letícia Martins de Andrade
344 páginas - R$ 49,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
O mundo da cozinha
“A comida é uma forma de conexão entre diversas culturas. Conservadoras, embora nada estáticas, as tradições alimentares e gastronômicas são extremamente sensíveis às mudanças, à imitação e às influências externas. Cada tradição é o fruto – sempre provisório – de uma série de inovações e das adaptações que estas provocaram na cultura que as acolheu”, afirma o professor de história da alimentação da Universidade de Bolonha (Itália), Massimo Montanari. Essa é a essência de O Mundo na cozinha: história, identidade, trocas (Editora Senac São Paulo e Estação Liberdade). O livro investiga o fluxo de ideias que influenciou a construção de identidades culinárias, além de explicar e reconstituir os percursos das trocas entre diferentes sociedades.O organizador Massimo Montanari, uma das principais referências mundiais na área, vem ao Brasil pela primeira vez para lançar a obra, em duas ocasiões: ministra a palestra Não há Inovação sem raízes, não há raízes sem inovação - seguida de autógrafos, no evento Semana Mesa SP 2009, dia 28 de outubro, às 12h; autografa também na livraria Cultura – Conjunto Nacional, dia 29 de outubro, às 19 horas.Fruto de uma conferência realizada na Universidade de Bolonha, em outubro de 2000, a obra traça um vasto panorama do intercâmbio gastronômico e cultural no mundo, especialmente, na Europa, Ásia, África e Américas.
Em oito textos, especialistas estrangeiros em história, antropologia e sociologia mostram como a alimentação se equipara a linguagem, criando intersecções entre diferentes povos. Os artigos debatem também como a comida auxilia na intermediação entre culturas, proporcionando invenções e contaminações, e, mostram porque as identidades mais fortes são aquelas mais abertas ao exterior. “O livro discute como o mundo e sua diversidade está presente na cozinha de todos”, diz Montanari. Para demonstrar essa tese, no artigo de abertura, o professor italiano dá como exemplo a cultura européia da Idade Média. Segundo o historiador, a civilização que surge na Europa, naquela época, é fruto da combinação da tradição romana com a tradição germânica: ao uso do pão, vinho e azeite soma-se a utilização da carne, da cerveja e da gordura animal. “Deriva daí um modelo inédito de produção e de consumo, onde a carne (principalmente a carne de porco) desafia o pão como ‘valor forte’ do sistema, numa dinâmica de integração recíproca, tanto econômica quanto simbólica, que representa, em minha opinião, um dos episódios mais interessantes da história da cultura alimentar”, avalia ele.
Há importantes debates sobre a trajetória da permuta cultural na gastronomia européia – antiga e moderna - e da culinária hebraica, por exemplo, uma cozinha que sofre com a conversação da própria identidade. Ariel Toaff, professor da Universidade Bar-Ilan (Israel), mostra de que maneira o preparo e as restrições às comidas judaicas ultrapassou a origem étnica dos hebreus e se mesclou às demais culturas, como a européia. Toaff demonstra que as imigrações de judeus para a Itália fizeram com que as comidas kasher fossem incorporadas por cristãos e vice-versa. “É um fato incontestável que os hebreus italianos foram menos rígidos nas proibições alimentares no que diz respeito ao consumo de pães, vinhos e queijos”, diz o especialista. Discussões contemporâneas também estão presentes nos ensaios, como o relacionamento entre as culturas locais e o mercado global. Autores, como o francês Jean-Peirre Devroy, explicam porque a noção de território e da culinária regional é uma invenção recente. Nesse contexto, o texto de Devroy debruça-se sobre o caso do Champagne, para falar da exportação de território.
Um estudo de caso sobre a cidade de Bolonha, na Itália, finaliza o livro. Escrito pelo organizador Massimo Montanari, o texto revela como a região tornou-se centro difusor da gastronomia européia. Segundo o historiador, o modelo bolonhês foi construído principalmente a partir da capacidade de conexão com outras culturas culinárias, integrando essas descobertas à sua identidade.
Serviço
O mundo na cozinha História, identidade, trocas
Organizador: Massimo Montanari
Tradução: Valéria Pereira da Silva
262 páginas - R$ 45,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
Peter Sloterdijk
O filósofo alemão Peter Sloterdijk desenvolve neste livro uma série de reflexões feitas a partir da morte de Derrida. Mais do que uma simples homenagem, trata-se de lançar um olhar entre o modesto e o extremamente ambicioso sobre uma obra de cerca de oitenta volumes. Em vez de monumentalizar o conjunto dos textos de Derrida, tenta-se revê-lo com o recurso da pirâmide e de seu significado na civilização egípcia, além de expor o modo como se deu o advento do monoteísmo.Afirma o autor: “[...] já se pode ter desenhado o contorno principal de um retrato filosófico de Derrida: sua trajetória se definiu pelo cuidado vigilante de não se deixar fixar numa identidade determinada — cuidado este afirmado tanto quanto a convicção do autor de que seu lugar só podia se situar na linha de frente mais avançada da visibilidade intelectual.”A hipótese de Sloterdijk propõe que o pensamento derridiano corresponderia a um tempo em que os autores, em vez de tratar diretamente dos assuntos, preferem comentar outros pensadores que já abordaram os mesmos temas. Viveríamos então numa época de leituras de segunda ordem, o que colocaria necessariamente Sloterdijk — leitor das leituras de Derrida — em uma posição de terceira ordem. Se assim for, talvez se torne necessário, diante do arguto e irônico ensaio que ora se publica, indagar se, desde os egípcios, e em seguida com os gregos, judeus, romanos e cristãos, os autores e as civilizações não estiveram sempre, de algum modo, propondo reflexões de segunda, terceira e quarta ordens — ao infinito.
Nessa perspectiva, a interpretação de Sloterdijk ganha uma dimensão sintomática de como ler hoje os textos das diversas civilizações que formaram, informaram e formataram o Ocidente em seus contatos inesgotáveis com esse outro, a um só tempo próximo e tão distante, o chamado Oriente. Ler Derrida à luz da cultura egípcia e das correlativas expropriações judaico-cristãs torna-se um exercício tanto mais interessante porque se faz na companhia de ninguém menos do que Hegel, Freud, Luhmann, Thomas Mann, e outros. É a esse colóquio filosófico e transdisciplinar que nos convida Derrida, um egípcio.
Serviço
Derrida, um egípcio
Peter Sloterdijk
Tradução de Evando Nascimento
80 páginas - R$ 25,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Elias Canetti entre nós
Já o segundo lançamento "Sobre a morte" versa sobre dois desafios que estão no centro de seu pensamento e parecem contradizer-se. Primeiro: é necessário jamais esquecer a morte. Depois: é necessário sempre resistir à morte. Este livro oferece uma compilação de breves anotações e de passagens mais extensas extraídas das obras de Canetti. No posfácio, Thomas Macho sai em busca de uma sistematização para as colocações do arguto pensador e mestre das formulações precisas que nunca se esquivou de confrontar-se com a morte.
Serviço
Festa sob as bombas – Os anos ingleses
Elias Canetti
232 páginas - R$ 46,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
Sobre a morte
Elias Canetti
Tradução do alemão de Rita Rios
160 páginas - R$ 35,00 (em média)
Editora Estação Liberdade
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Peter e a pedra

Numa época indefinida de um século XXI já avançado, uma banqueira – “a princesa das finanças” –, que vive numa cidade portuária do noroeste europeu, pega um avião com destino à região espanhola da Mancha, que Miguel de Cervantes tornou tão famosa. De lá, dirige-se à Sierra de Gredos. Sai em busca de um escritor que contratara para narrar sua história. Depara-se com uma cidade, imaginária, cujos habitantes – uma curiosa galeria de personagens – experimentam uma perda total de imagens, idéias, ritos, sonhos, ideais e leis. Um efeito do mundo que os rodeia, no qual as mudanças climáticas são um fato, as guerras são contínuas, as sociedades se agrupam em âmbitos locais e os meios de comunicação inundam as vidas cotidianas.
O romance discute o papel dos meios de comunicação que moldam grupos humanos uniformes e vê a propagação de imagens como geradora de grandes vazios de conteúdo. Uma história sobre o entusiasmo perdido e reencontrado. O grande escritor austríaco, sempre nas listas dos nobelizáveis, nos entrega aqui uma vasta reflexão sobre a validade da escrita e sobre a posição de um autor no momento de se entregar a seu ofício: composição de personagens, escolha da ambientação, situação no tempo. Mas para tanto compõe uma obra de grande complexidade que focaliza o mundo imagético de hoje e a perda dos registros tradicionais, como se tudo estivesse borrado, descartado e todos estivessem dessensibilizados e perderam a noção do tempo e dos registros, tratando de recuperá-los. Titanesca literária busca de um autor que se recusa a não se recolocar em cada uma de suas obras.
A perda da imagem ou Através da Sierra de Gredos foi bem recebida pela crítica em língua alemã. O prestigioso jornal Süddeutsche Zeitung considerou a novela como “o grande contra-livro” frente ao realismo fácil que impera hoje na literatura alemã e “a reconquista das pás dos moinhos” de Dom Quixote.
Serviço
A perda da imagem ou Através da Sierra de Gredos
Peter Handke
Tradução: Simone Homem de Mello
584 páginas - R$ 68,00 (em média)
Editora Estação Liberdade

