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domingo, 25 de abril de 2010

Juó Bananére - Irrisor, Irrisório - Carlos Eduardo S. Capela


Quem é e como é esse tal de Juó Bananére? Um narrador e personagem – quem sabe um heterônimo – ou simples pseudônimo de um escritor ocultado que fala por outro e por si mesmo? Qual seria, afinal, o estatuto da representação dessa espécie de persona que, ao que tudo indica, ganhou autonomia, quase plena, frente a seu inventor?

Parece que Juó Bananére tornou-se ele mesmo um “sujeito literário”, ou um “ser da escrita”, pois inventado por Alexandre Marcondes Machado acabou por reinventar seu inventor como escritor. Talvez se possa dizer que na escritura cômica e macarrônica brasileira existe Juó Bananére e não Alexandre Marcondes Machado.

Fenômeno semelhante acontece com o Barão de Itararé e seu inventor Aparício Torelly, além de alguns outros, que trabalham com o gênero cômico popular. Isso indica que o cômico popular – que tem origem nas festas coletivas, nas práticas de expropriação, ocultação e hibridização de materiais, nas combinações disparatadas e arbitrárias – quando se realiza na escrita contamina-a com essa “lógica” diversa e a transforma em “outra coisa”, que não o padrão erudito e seu aparato de poder.

Juó Bananére irrisor, irrisório de Carlos Eduardo Schmidt Capela, com seu acuradíssimo estudo inicial e a magnífica antologia que o segue, dá conta das dimensões problemáticas, e também criativas e inventivas, da escritura do principal cômico-macarrônico brasileiro, em quantidade e qualidade.

Colaborando intensamente em O Pirralho, a revista paulistana criada por Oswald de Andrade e amigos, juntando charges e caricaturas de Voltolino, desde 1911, continua até 1917 e nos anos seguintes em outras publicações humorísticas de teor semelhante (O Queixoso, A Vespa, A Manha, esta do Barão de Itararé) só findando com a morte de Alexandre Marcondes Machado, em 1933.

A força humorística e satírica do cômico macarrônico institui sua autonomia frente ao cânone erudito e os padrões de leitura deste não servem e não dão conta desse corpo estranho no mundo da escrita. Isso lembra os problemas de leitura da obra do Marquês de Sade (este por diverso motivo).

Assim, Juó Bananére, sendo moderno pelas inúmeras implicações sociais e de linguagem de sua escrita, não pode ser visto como “precursor” do modernismo erudito da Semana de 1922. O estatuto de sua representação é bem outro. E, falando com radicalidade, seu italiano imigrante pobre em São Paulo – e os ítalo-paulistas – aparece como uma espécie viva e monstruosa de bagaço social e cultural. E essa espécie de bagaço fala e escreve pela voz dos despossuídos do país, o qual nunca terá prestígio mas se impõe como uma afronta, uma escrita afrontosa, já que não é bagaço de si próprio, senão dos poderes do Capital.

Serviço
Juó Bananére - Irrisor, Irrisório
Carlos Eduardo S. Capela
538 páginas - R$ 80,00 (em média)
Editora Nankin Editorial / Edusp

A poesia completa de Machado de Assis


As poesias de Machado de Assis já mereceram algumas edições, desde 1901, aquela organizada pelo próprio poeta, mas nada que se compare à escala da publicação de sua prosa, especialmente contos e romances. Como sabido, Machado escolheu o que ele considerava o melhor e excluiu muitos poemas, que foram depois recuperados e incorporados por editores e editoras, formando afinal um conjunto que vem sendo chamado de Poesias Completas, embora se constate que continuam mais ou menos incompletas...

Por sua vez a Comissão Machado de Assis, nos idos dos anos de 1950-1960, produziu uma edição crítica das Poesias Completas, restaurando o que seria a última vontade do autor, como o fez com as obras em prosa que Machado havia publicado em vida. Foi restaurada, com texto confiável, a edição de 1901.

Nesse século decorrido, diversos e cuidadosos pesquisadores – merecendo realce Raimundo Magalhães Jr. e Jean-Michel Massa, entre outros – examinaram jornais e revistas (e mesmo documentos particulares) do século xix e levantaram muitos textos “desprezados” ou “esquecidos” e os fizeram integrar às poesias machadianas.

Esta nova edição incorpora tudo o que até agora se conhece dessas poesias, oferecendo preciosas notas de esclarecimentos, tanto das origens e publicação, quanto de problemas de linguagem, cortes, modificações e dúvidas. Trata-se pois de edição cuidadosamente anotada pela jovem pesquisadora Rutzkaya Queiroz dos Reis, tudo feito no âmbito de pesquisas na Universidade de Campinas. Foi incorporada, pela primeira vez em livro, até mesmo a paródia machadiana de fragmento do Inferno da Divina Comédia, de Dante, recuperada em pesquisa de Eugênio Vinci de Moraes, existindo referência anterior a ela, mas não sua transcrição, em Raimundo Magalhães Jr.

Com esta edição – produto de esforços comuns da Edusp e da Nankin Editorial – os pesquisadores, estudiosos e poetas do Brasil e de alhures terão acesso à Poesia Completa em edição plenamente confiável, com tudo o que até hoje foi encontrado e publicado, ou não.

Completa este volume uma considerável fortuna crítica da época das publicações dos livros de poemas de Machado, contribuição esclarecedora da repercussão então alcançada. Vale notar que Machado de Assis cuidou com carinho e atenção de sua poesia, diferentemente do que certa tradição crítica, meio atrabiliária, veio a firmar, como se ele fosse apenas um mau poeta, ou nem de fato poeta fosse...

Serviço

A poesia completa de Machado de Assis
Machado de Assis
Organização: Rutzkaya Queiroz dos reis
752 páginas - R$ 100,00 (em média)
Editora Nankin Editorial/ Edusp